Por que o cabelo de uma criança preta incomoda tanto?

August 11, 2017 2:20 pm

A infância de uma criança preta é assustadora. Toda a novela que existe por trás do cabelo, essa responsabilidade de desde muito nova ter de domar o lado África para que as pessoas não se incomodem.

Mas, por que o cabelo de uma criança preta incomoda tanto?

Quanto mais a genética africana aflorar na pessoa, mais ela tem de podar esse lado. Quanto mais crespo o cabelo dela, mais sofrerá essa criança. A primeira vez que passaram química no meu cabelo foi aos seis anos. Eu nem sabia o que iam fazer, não tinha discernimento para escolher o que era melhor para meu cabelo, e pelo que todos me falavam isso seria bom pra mim. E fizeram.

Depois, vira uma escravidão, e se você não gosta do teu cabelo a culpa é tua, que não cuida, que tem que hidratar, que tem que passar outra química pois aquela já não é tão boa. Tem que fazer hidratação mil vezes por semana, tem de passar mil litros de creme. Mas nem isso é suficiente. Porque você só é um preto tentando domar seu lado áfrica e os brancos ainda tiram onda do tipo: “ah porque você não deixa seu cabelo natural?”

Mas quando aparece uma criança com o cabelo natural do lado, vem o medo. Acha que tem piolho, que a mãe não cuida, tira sarro.

Gente, mas por que o cabelo de uma criança preta incomoda tanto?

Nem dá pra dizer que minha mãe tem alguma culpa nisso, apesar de responsabilidade, afinal, ela era a minha responsável. Desde muito nova ela me falava o quão lindo era o povo africano. Lá em casa tínhamos vários livros que retratam a beleza do povo preto, sempre tivemos bonecas pretas, contos africanos, e ela sempre me achou maravilhosa e sempre me disse isso.

Mas minha mãe não nasceu tão preta como eu, não tem cabelos tão crespos como o meu. E quanto mais preto, mais racismo. Minha mãe não sofreu o racismo que eu sofri. Apesar dela saber que existe, de sempre ter me ensinado me mostrando que o problema estava nos racistas e não em mim, ela não sabia me defender, porque ela nunca precisou se defender.

Quando a tia Rita ligou dizendo que meu cabelo não estava com balanço, que deveria fazer algo, ela achou que fosse pro bem. Quando lhe foi sugerido por todos que meus cabelos fossem domados, ela não imaginava que estava me escravizando – até porque minha mãe ama salão de beleza – ela não queria que eu sofresse. Como a mãe de um filho gay que tenta esconder para que o filho não sofra. Ela não queria que me confundissem com um pivetinho, ou que me denominassem assim, ou que me colocassem apelidinhos na escola. Ela fez tudo que fez pensando que fosse me ajudar – e, sinceramente, de repente até ajudou mesmo, porque me livrei de muito ódio durante a infância que agora sinto que meu cabelo desperta nos outros.

Não tentem jamais culpar a minha mãe, não tentem jamais culpar o preto pelo racismo que o branco criou. Minha mãe passou química no meu cabelo quando criança pois o cabelo de uma criança preta incomoda muito.

Mas por que o cabelo de uma criança preta incomoda tanto?

De repente a resposta esteja no fato da marginalização de tantas crianças pretas.

É comum pelas ruas crianças pretas sem rumo , fruto de uma relação não planejada e nascendo quase que sem família, filhos da rua. Na nossa sociedade é comum ver crianças pretas pedindo esmolas, vendendo bala, engraxando sapatos, trabalhando em vez de estarem na escola. É comum até ver crianças pretas anestesiando seus sofrimentos com drogas, alucinadas, roubando para comer ou simplesmente para ter o mínimo que uma criança branca tem.

As crianças pretas estão marginalizadas e quem tá nessa situação não têm tempo nem dinheiro pra domar seus cabelos.

Então foi nessas crianças pretas que o cabelo crespo ficou mais evidente e, com isso, o cabelo crespo virou uma característica particular dos marginalizados (os moradores de rua, catadores, pedintes…).

Mas o cabelo crespo – quando digo crespo, não tô falando sobre o enrolado, ondulado, frisado ou algo assim mais aceito pelo padrão – eu tô falando crespo mesmo,  aquele pra cima, o indomável, chamado pejorativamente de duro. O cabelo crespo não é uma característica particular dos marginalizados, e sim dos pretos mais escuros, os que mais sofrem racismo no chamado colorismo.