O jeitinho brasileiro

September 1, 2017 11:30 am

por Manoela Gonçalves Ramos

Eu nunca aceitei muito bem o discurso de que o Brasil não presta. De que todos somos corruptos e que nosso governo reflete o comportamento da maioria. Eu nunca percebi o Brasil como um lugar hostil, perigoso e violento como é retratado nos telejornais, e sequer aceito o discurso de que o jeitinho brasileiro seja uma malandragem corrupta.

Chegou um dia em que eu decidi conhecer melhor o meu país. Não só as paisagens e belezas naturais, mas o povo brasileiro e o tal jeitinho que dizem que temos. Descolei umas miçangas pra vender na praia, coloquei na mochila o que pensava ser necessário e lá fui eu conhecer melhor o lugar em que nasci.

As miçangas, apesar de me renderem algum dinheiro, são pretexto para conhecer de verdade os nativos de cada lugar. O valor que ganho nem se compara à quão valiosa é a sensação de pertencimento por cada local em que passo. O legal de viajar vendendo na praia é o olhar que as pessoas têm de mim, não sou tida como turista e sim como nativa, afinal, quando eu estou ali, estou trabalhando. Assim estou podendo conhecer de verdade o povo brasileiro.

E que povo receptivo esse tal de brasileiro!

A dona Maria quando me conheceu, quando viu uma menina viajando sozinha e vendendo, me deu um abraço forte e disse de uma forma muito sincera que torcia muito por mim. Uma outra Maria, que vive vendendo miçangas há anos, agora coroa e continua debaixo do sol trabalhando, fez um manual de dicas, disse que eu deveria ter variedade e me deu alguns trabalhos dela para preencher meu painel. Eu até fiquei sem graça em aceitar, mas não quis fazer desfeita. A Neice, mais conhecida como baiana, disse que se eu precisasse de algo, era só chamar. A Ju, uma “hippie” que viaja com o marido e filho vendendo, me ensinou quais os melhores horários e dias para vender na praia.

Na areia, debaixo do sol, não parece existir concorrência. Todos se respeitam e colaboram um com o outro. Em geral, o brasileiro é um povo que compartilha muito. Eu nunca pedi mas muito me oferecem ajuda. Às vezes, passa alguém vendendo comida e me dá algo. Os preços pra mim são mais em conta e de vez em quando até rolam uns passeios de graça, naqueles dias sem movimento. As pessoas me acolhem e me ajudam. O brasileiro tem esse jeitinho.

A cada lugar que passo percebo que o jeitinho brasileiro é o jeito de uma gente zelosa, acolhedora e extremamente amorosa. O Brasil não é isso que mostram nos telejornais e o mundo tem mais pessoas boas que más.

Eu digo isso porque é o que vejo a cada dia que passa e conheço melhor esse povo brasileiro.