Há riqueza na pobreza

November 7, 2017 6:05 pm

por Manoela Gonçalves Ramos

Uma das coisas que chama atenção em todos dos lugares paradisíacos do Nordeste brasileiro é a falta de estrutura da população local. As casas são super simples. A vida é simples, não tem luxo. Tem umas casinhas assim no barro mesmo, coisa de gente que não tem muita grana. E não é exagero não, todo o litoral nordestino é assim: tem uma rua principal com bares, lojas e restaurante, em que geralmente a maioria dos proprietários são gringos; têm uma pequena parte de casarões, condomínios e pousadas que atendem mais aos turistas do que aos locais. E aí depois da rua principal, são ruas que nem calçadas são, com casinhas todas bem grudadinhas e bem humildes.

Tive o privilégio de frequentar a casa de alguns nativos que fiz amizade. Algumas casas não tinham cama, somente redes. Tinham casas que me lembravam “ocas de concreto”. Fui em uma, do seu Puluzinho, que não tinha energia elétrica. A noite era linda lá. A comida, eles tiravam da terra, não tinham congelador.  Tudo era retirado e feito na hora.

Lembro também da casa do Zé que simplesmente não tinha banheiro. Eu pedi para ir ao banheiro, e quando cheguei lá era só um buraco no chão. O Zé faz dinheiro trabalhando como guia e já trabalhou em pousadas da região. Conversando, ele me contou como já ganhou e gastou dinheiro. Sua casa foi das mais simples que entrei na vida, na hora fiquei pensando: “po, já que ganhou dinheiro, porque colocou um vaso sanitário e comprou uma cama?” Depois percebi que no fundo eu estava julgando a vida do Zé baseada no meu padrão de consumo e felicidade.

Pensei em tudo de material que eu julgava extremamente necessário para viver. Não encontrei nada lá. A maioria não tem celular com internet, muitos lugares em que nem sinal pega. Computador então, raríssimo. Como eu disse, algumas casa nem cama, só rede, e mesa também era raro encontrar. Guarda roupas quando se tem, é bem simples, e ninguém tem tantas roupas assim pra se guardar. A vida da maioria dos nordestinos é com o básico mesmo, com o que a natureza tem para oferecer. A galera do litoral dificilmente passa fome pois a natureza é bem generosa. Lá chove e a comida é tirada da terra em abundância. É realmente difícil passar fome, apesar da simplicidade, em qualquer casa que você para e pede uma sobra de comida, eles te recebem com banquete.

Me lembro muito da Dona Elisângela e o Bob, um casal cearense que me acolheu muito bem. Apesar da simplicidade, da pobreza material, existia uma inteligência indescritível no Bob. Ele conversava sobre política como um especialista, e lá não tinha internet. Ele assistia ao noticiário e tirava suas próprias conclusões, não estava falando apenas o que leu, e sim o que refletiu. Apesar de poucos estudos, era uma pessoa super inteligente.  Samuel, seu filho de 7 anos questionava o porquê do pai não ir procurar um emprego, o casal era autônomo, tinha uma pensão e ganhava bem pouco. Me contaram que alguns meses ficava “apertado” e só tiravam o da comida, não tinham luxo algum. O filho já querendo um pouco mais de luxo questionava porque dele não procurar um emprego. Bob dizia que não existia emprego no mundo que pagasse sua paz, tranquilidade e liberdade. Estava satisfeito, não tinha ambição.

Percebi que julguei a casa de muitas pessoas. Em muitas que fui, de primeiro momento ficava compadecida, sem graça em aceitar qualquer favor ou ajuda de uma gente tão pobre materialmente. Pensava que o que me ofereciam lhes faria falta. Percebi que a vida toda julguei a pobreza material, como se o simples fato do não ter algo fosse sinônimo de desgraça, ou até de tristeza. Lembrei que sempre quis mudar o mundo e ajudar aos necessitados; pensei se não continha uma certa arrogância em julgar a forma com que percebo a vida, como se a minha forma fosse a boa. Já cheguei a pensar que a pior coisa a ser enfrentada em nossa sociedade seria a pobreza material.

Na verdade, somos induzidos a pensar assim. Nossa sociedade se configurou de uma maneira em que o dinheiro representa o paraíso enquanto a pobreza material representa o inferno. A classe média tende a perceber o pobre como um desgraçado, um coitado, uma vítima que precisa de ajuda.  Por vezes eu pensei que precisava fazer algo e ajudar aos pobres, como se eu tivesse em uma posição melhor que a deles pelo simples fato de possuir mais dinheiro. Existe um mito em nossa sociedade de que para ser feliz são necessárias conquistas materiais. Na verdade, nós somos estimulados a essa lógica, pois é ela que nos leva a competição.

Todas as pessoas com quem convivi tinham suas filosofias, estavam satisfeitos e gratos a Deus. E não é alienação da religião, é a compreensão de vida que essas pessoas têm. É sabedoria, é o conseguir ser feliz independente da situação. De repente por isso sejam chamados de humildes, não pela sua falta de dinheiro, mas pela grandeza de seus corações. Foi impressionante como conviver com a pobreza material, assim de uma forma amigável, e não na figura de uma pessoa ajudando, e muitas vezes até sendo ajudada por eles, me trouxe felicidade e paz. Não quero romantizar a pobreza, principalmente porque sei que a vida dos pobres do litoral é muito diferente das dos que estão nas cidades, que vivem longe da natureza, levam a vida de consumo, carreira e competição. Mas, todo esse convívio me provocou muitas reflexões a respeito do que realmente é pobreza. Se não existissem comparações, muito provavelmente essas pessoas nem se sentiriam pobres, afinal, elas tem um olhar riquíssimo a respeito da vida e das relações humanas. Vi que muitas vezes eu é que enxergava problemas que pra eles eram naturalidades da vida. A compreensão e visão de mundo deles vai muito além, muitas vezes quem está tentando ajudar um desafortunado enxerga problemas que pra eles não são problemas de verdade. Muitas vezes queremos mudar a vida de terceiros baseado no que julgamos ser bom, porque é bom pra nós.

É claro que a desigualdade social é algo gritante e muito agressivo, mas no fundo nós que tentamos colaborar um pouco com a igualdade social, queremos igualdade a partir dos nossos princípios e visões. Até o nosso jeito de combater a pobreza é dominador. Queremos oferecer acessos, estudos em instituições que servem ao mercado e ao sistema, queremos incluí-los no nosso estilo de vida, e assim nos sentimos fazendo o bem, já que julgo a minha vida como sendo boa. Nesse mesmo mundo existem diversas visões e estilos de vida, não dá para querer unificar todas as visões porque vira dominação. Se nós acreditamos que o bem estar está no consumo e no poder de compra não podemos julgar os que encontram-o na simplicidade. Utilizamos números de televisão para definir classes sociais. Utilizamos poder de compra para julgar o padrão de vida. Esquecemos que os desafortunados, muitas vezes, são os mais ricos, possuem a maior riqueza que é a felicidade. São pessoas felizes. Me lembro disso, apesar de todas as dificuldades, que pra eles eram naturais, apesar de todas as naturalidades de suas vidas que eu julguei como dificuldades, todos tinham sorrisos nos rostos. Alguns sorrisos banguelas, mas todos estavam felizes com suas vidas, as levavam como queriam e estavam mais próximos da liberdade.