“Eu sou a cota.” – Manoela Ramos e o racismo estrutural da nossa sociedade

August 1, 2017 3:48 pm

Minha mãe sempre me contava que no Brasil a maioria da população é preta. Então eu ia pra escola particular de arte e educação onde eu, minha irmã, e mais três éramos os únicos pretos da escola. Tinha mestiços, mas esses preferiam se associar aos brancos. Nos restaurantes, no cinema, na praia ou em qualquer outro tipo de lazer, a mesma coisa. Via os pretos servindo. Sempre. Desfrutando, apenas eu e minha irmã. Às vezes tinha mais um.

Eu mesma quase não tinha amigos pretos, só aqueles filhos de amigos da família e os primos.

Depois fui morar no Rio para fazer faculdade e ainda assim eu não via pretos por lá. Eu morava em Copacabana! E ah… lá eu via muitos. Tinha preto morador de rua pedindo e muitos pretos servindo. Às vezes via umas crianças pretas sendo revistadas pela polícia. Na praia, se eu quisesse ver pretos era bom que me localizasse perto da descida de alguma favela Aí eu via meu povo. Fora isso, não via pretos. Nos bares de Copa, Santa Tereza, na São Salvador, do Leme ao Pontal, os pretos são os que estão servindo.

Eu antes não pensava em segregação racial, eu pensava que isso tinha acabado com o fim da escravidão, como se a escravidão tivesse tido um fim. Eu antes vivia na ilusão da segregação social. Até sabia que a maioria dos pretos nasciam pobres, como meu pai, mas pensava que isso tinha relação só com o passado e não também com o presente.

Sou uma preta classe média. Sempre estive ao lado dos brancos, desfrutando da minha classe. Era mais cômodo enxergar as coisas sob a ótica da segregação social. Pois assim eu não estava fazendo nada demais em desfrutar com a minha classe. Como se fosse sorte, quase uma benção. No fundo, todos que estão desfrutando de seus méritos, seus e dos familiares, acreditam e legitimam a meritocracia. Eu pensava que eu tinha mérito em desfrutar, já que meu pai trabalhou tanto para dar tudo de melhor pra minha família.

Depois de um tempo isso começou a me incomodar muito e na época eu pude me dar ao luxo de fazer terapia. Cheguei dizendo que estava angustiada, pois era muita gente passando necessidade e que isso me deixava mal. A terapeuta me perguntou o porquê disso me deixar mal, já que em muitos não provocava reação alguma. Na hora pensei e veio a resposta: porque eu só via os pretos na pior, era algo quase que comigo. Eu me via ali, mas ao mesmo tempo estava ao lado dos brancos desfrutando.

Manoela Ramos, colunista do blog da VV

Manoela Ramos, colunista do blog da VV

Decidi que não queria mais fazer parte disso e dessa vez me mudei para Aiuruoca, no Sul de Minas. Fiquei um ano morando em um lugar onde iam pessoas muito especiais. Pareciam que não estavam presos a essas ilusões criadas, não faziam discriminação alguma, era um local era livre, muitos homossexuais, mochileiros, galera hippie. Por um momento pensei que havia me encontrado.  Pessoas sem preconceito, falando de amor e paz, renegando o sistema que o branco criou. Mas aí me dei conta de que poucos foram os pretos que vi passando por lá, afinal, só desapega quem tem para desapegar.

Foi então que eu vim morar em Salvador, onde 87% da população é preta, onde a cultura africana é super difundida e consumida inclusive por brancos, onde os deuses africanos são reconhecidos e respeitados, e ainda assim o preto está numa desvantagem incalculável aqui. Os bairros de classe média me lembram o Rio de Janeiro onde só vejo os pretos servindo e os brancos desfrutando.

Eu antes pensava que o maior problema que nós pretos vivíamos era em relação a demonização da nossa cultura pois foi esse o problema que sempre me atingiu. Mas aí eu entendi que o grande problema é a pobreza material que a grande maioria do povo preto nasce, aí é que está a desvantagem. O racismo é um problema estrutural e a grande maldade do racismo é manter os pretos em condições miseráveis em detrimento do desfrute dos brancos.

E foi assim desde que as raças começaram a se relacionar. A segregação é racial, a questão social existe apenas para legitimar esse tipo de segregação em um mundo regido pelo dinheiro.

Pensar que a sociedade é dividida agora por classes sociais e não mais por raça, como no tempo da escravidão (como se a escravidão tivesse tido um fim..), é só uma forma de se eximir da responsabilidade.

Tudo bem, é certo que existem as classes sociais, mas essas servem apenas para comprovar que a população preta continua vivendo na miséria e ocupando majoritariamente as classes mais vulneráveis e exploradas da população.

Tá certo também que existe a possibilidade de mobilidade de classe, mas até isso, se você analisar uma periferia, os que mais ascendem são os brancos. Mesmo nas periferias, normalmente são eles os donos de estabelecimentos e são essas as meninas que serão as sortudas escolhidas para virar modelos, cantoras ou fazer comerciais.

O sistema foi criado por brancos e para brancos. O sistema em que vivemos favorece o estereótipo. Eu sei, é muito assustador perceber que até hoje nossa sociedade se configura assim. Mas é a realidade. Acredite, nascer branco na classe média não é mérito, nem sorte nem benção. É o reflexo de que nossa sociedade é estruturada a partir da raça. E nascer preta na classe média é ver essa segregação muito explícita desde pequena.

A cota não simboliza uma sociedade igualitária. Pelo contrário, explicita o quão racista é a nossa sociedade. Ser uma preta classe média é ver explicitamente a segregação.

Afinal, sou a cota.