Reflexões de medo e mídia, por Manoela Gonçalves

April 27, 2017 12:54 pm

por Manoela Gonçalves

Dia desses estava eu subindo uma rua de ladeira em São Cristóvão, quando vi uma senhorinha, cheia de sacolas de supermercado, subindo um pouco mais a frente do que eu, toda cansada. Então adiantei meu passo para alcançá-la e logo fui me oferecendo para carregar suas sacolas. A senhora segurou meu braço assim meio se apoiando, disse que não precisava de ajuda para carregar as sacolas, mas que de fato estava cansada e que precisava parar um pouquinho para pegar um ar.

Eu, que já adoro assuntar, a deixei segurando meu braço e continuei esperando ela recuperar o fôlego. Nisso a senhora começou a me contar da vida dela (não sei o porquê, mas as pessoas adoram me falar de suas vidas e eu adoro ouvir) e disse que há pouco tempo ficou muito doente, que não conseguia nem sair de casa. “Um horror, minha filha”, dizia ela.

Eu, meio curiosa, meio fofa, logo disse:

– Ah, mas nem parece, a senhora está com uma aparência ótima.

Ela respondeu:

É, mas eu não saía nem de casa, meus filhos não sabiam o que fazer comigo. Eu tive aquele negocio do pânico. Fiquei com pânico, não conseguia sair de casa, eu via muita televisão, noticiário falando de bandido o dia todo, antes de dormir imaginava os bandidos entrando na minha casa, fazendo maldade com minha família, achava que quando eu saísse na rua iriam me sequestrar, me assaltar, ficava com medo de sair e ter bala perdida. Só melhorou quando o médico disse:

– Dona, joga a televisão fora!

– Não deu outra, joguei e agora tô boazinha. Até penso nos bandidos de vez em quando, mas agora é só de vez em quando, quase nunca.

Eu disse logo:

– Menina! Isso é assim mesmo! Comigo aconteceu a mesma coisa, esse negocio de televisão toca o terror na gente, deixa cheio de agonia, um horror. Meu médico também me mandou parar com a televisão.

Ela, muito surpresa e até um pouco aliviada, completou:

– Gente, achei que fosse um problema só meu, aconteceu com você também? Achei que era da idade, sei lá mas esse negócio de televisão é terrível mesmo

Moral da história: não aconteceu comigo porque antes de ficar paralisada pelo medo, deixei bastante a televisão de lado, sobretudo antes de dormir, mas acontece muito mais do que a gente imagina. Televisão é uma arma poderosíssima de controle através do medo mascarado de realidade. O mundo realmente real, o mundo de sentimento, compaixão, generosidade, o mundo de fato humano, não aparece na televisão.

A vida vivida é muito melhor e mais tranqüila do que a que a gente assiste no noticiário.  

Por que falar de apropriação cultural em uma cultura global?

April 20, 2017 7:09 pm

por Manoela Gonçalves

Vire e mexe vem à tona o assunto de apropriação cultural nas redes sociais. Dentro dos coletivos, essa é sempre uma pauta muito discutida. Pela definição, apropriação cultural é a utilização de elementos específicos de uma cultura por um grupo cultural diferente. Por definição, apropriação cultural parece sem nexo dentro de uma cultura globalizada.

Mas o que seria essa cultura global?

Me lembro de ter ouvido esse termo pela primeira vez na aula de geografia quando estudei o processo de globalização. Da forma que estudei, esse processo pareceu algo bastante natural e pacífico. Algo como se as culturas presentes no mundo tivessem entrado em um consenso e se fundido em apenas uma, e aí vieram os meios de comunicação para aproximar ainda mais essa ideia de unidade cultural, formando uma cultura global.

No entanto, a aula de história me mostrava algo contrário a um processo pacifico e natural. O processo de globalização iniciara com a saída dos europeus para a “descoberta” de novos lugares. Se romantizarmos bastante a história, podemos até entender todo esse movimento como algo para unir os continentes e finalmente o mundo retornar ao estado original de união, não existindo separações. Mas ao analisar a história, percebe-se que não foi assim que aconteceu e acontece.

A saída dos europeus não teve como intuito a união das culturas e sim seu domínio, e para isso o aniquilamento delas.  Por mais que a ideia de uma cultura global e a união das nações seja, ao meu ver, bastante interessante, a agressividade, ego e ganância do seres humanos que dominaram nunca deixou que isso se desenvolvesse de uma maneira natural e pacífica. Os europeus saíram em busca de riqueza, e a encontrou nas culturas.

Assim se deu os relacionamentos culturais, como uma forma de se obter riquezas. Primeiro existiram negociações comerciais, depois foi à base do domínio e aniquilamento. Como os europeus saíram à frente nessa aventura de dominar o mundo, eles foram os que enriqueceram primeiro, depois seus descendentes espalhados pelo globo.

Aqui no continente americano não foi diferente. É sabido que quando a América teve contato com a Europa, a cultura original americana foi sendo submetida ao poder do outro povo. Igualmente se deu o contato entre Europa e África. A Europa enriqueceu a custa do domínio de outros continentes e de outras culturas. E isso resultou na miséria de muitos povos até os dias atuais.

A tal apropriação dos elementos culturais de uma cultura por grupos culturais diferentes resultou no aniquilamento de muitas culturas e no enriquecimento de poucos. A chamada cultura global assim demonstra-se ser um mito, visto que o que existe na realidade é um domínio global por parte de uma cultura.

Se formos considerar toda a história da humanidade, essa parte não faz tanto tempo assim, com isso, até hoje esse processo de apropriação cultural ocorre para o enriquecimento de poucos à custa da cultura alheia.

Quando contesta-se a utilização de elementos culturais por parte de outros grupos, refere-se a organizações que estão fazendo o processo semelhante à história da dominação cultural. O que está sendo contestado e criticada são a estrutura social e as organizações que estabelecem tal estrutura e não um ato individual. O problema não está em um cidadão utilizar elementos de outras culturas, sentir-se pertencente a uma cultura que não condiz com sua criação ou tipo físico. O problema existe quando isso é feito por organizações que irão lucrar em cima disso sem dar qualquer retorno para o grupo cultural explorado.

Se uma marca quer anunciar seu produto utilizando elementos culturais, ela deve por responsabilidade social, respeitar os atributos. Uma propaganda exerce muita influencia e gera informação aos indivíduos, muitas pessoas não tem conhecimento a respeito das culturas. No momento em que uma marca veste uma pessoa branca de uma Deusa africana, por exemplo, para anunciar uma coleção, isso torna-se apropriação cultural. Por que não eleger uma modelo de acordo com a estética da cultura que ela diz querer propagar? Não estaria ela propagando de uma forma muito mais fiel e esclarecedora e ainda retornando parte do lucro a pessoas dessa cultura?

De repente para o grupo que se beneficiou com toda essa história, essa questão pode parecer pequena, uma besteira. Mas para os grupos que estão tentando se reerguer mesmo com toda essa história, essa questão é mais que fundamental, é vital. Afinal foi devido à apropriação cultural que o mundo se encaminhou para essa desigualdade social. E se estamos tentando desfazer toda essa organização desigual, é preciso retribuir o valor correto que se obtém em cima de uma cultura oprimida, só assim começaremos a acabar com toda essa opressão.

Eureca, uma empresa jovem que coloca o jovem no mundo profissional

April 17, 2017 10:02 am

Eureca é a interjeição do famoso matemático grego Arquimedes, que signifca “encontrei!”. A exclamação de resolver um problema muito complicado. E a entrevista do #BlogVV de hoje é com Augusto Junior, da empresa que leva o nome dessa notável expressão. A Eureca nasceu em 2011, no boom que houve no Brasil de startups. Surgiu como um blog que falava desse mundo de inovação dentre os jovens, e teve uma recepção muito boa do público, principalmente sobre a forma que compartilhava conhecimento. Do blog, passaram a levar workshops, principalmente pra faculdades e mais tarde foram localizados pelas empresas para realizarem os processos seletivos. A Eureca, assim como a VV, tem como objetivo envolver os jovens pra fazer a diferença! A entrevista tem dicas pro jovem que está chegando agora no mercado de trabalha e explica como o trabalho social, que leva adiante o BEM pode ajudar na vida pessoal e profissional de cada um.

Augusto, como foi esse caminho de chegar ao âmbito profissional, fazer os processos seletivos de grandes empresas?

Percebemos que o modelo de processo seletivo das empresas era muito ultrapassado, e que a história de um jovem vai muito além de um currículo, de um pedaço de papel. A partir daí criamos uma plataforma nova, baseada na gamificação. Isso fez os jovens aderirem, porque dava a elas toda a questão de pontuação, etapas e tudo mais. A segunda premissa é que rola uma experiência de desenvolvimento. O jovem não se sente sob avaliação, é como se fosse um workshop. O terceiro é o matching de cultura, pra gente ter certeza que o jovem esteja no processo seletivo da empresa certa pra ele.

Com todo esse contato com o universo do jovem atual, o que vocês acham que o jovem busca como propósito?

Os jovens hoje eles tão em busca de coisas que vão além do salário. A gente sabe, temos exemplos de muitos jovens que largam salários altos pra trabalhar em coisas que o gratificam, que tem propósito, significado. Eles não querem fazer coisas por fazer. Querem fazer coisas pra mudar o mundo. E realmente, eles podem, eu acredito nisso. Outra questão é o desafio. O jovem de hoje quer se sentir desafiado, sentir que pode crescer mediante desafios.

Qual a valorização que vocês sentem que é dada por esses jovens pro trabalho social e voluntário? E como atrair os jovens pra fazer esse trabalho?

Hoje o trabalho social, voluntário, humanitário é essencial, é importante pro jovem. Hoje isso é considerado essencial pelo mercado, que o jovem seja envolvido com causas, com trabalhos sociais, importantes. Isso mostra às empresas que são candidatos dedicados, e com certeza aumenta a chance deles nos processos.

O melhor jeito de atrair o jovem é mostrar que ele é fundamental, que ele realmente pode fazer a diferença. E claro, tem que haver a causa. Cada um tem uma conexão com uma causa, seja a ambiental, a humanitária…

 

André Fran no México: Violência contra ativistas dificulta ações sociais

April 10, 2017 7:57 pm

Nosso co-fundador, VP de comunicações, apresentador, escritor e palestrante agora é também um correspondente especial da #VV! O Fran já viajou por dezenas de países e leva o perfil da #VV, de ajudar o próximo e enriquecer a própria experiência de vida como filosofia pessoal. Em sua nova coluna especial exclusiva para a Volunteer Vacations, ele vai visitar, conhecer e apresentar projetos, pessoas, ONGs, iniciativas que façam a diferença no mundo em que vivemos. Tudo a ver com a VV!


O último destino de Fran foi o México. Com a equipe do “Que Mundo É Esse?”, Fran foi ao México ver toda a questão da polêmica do muro de Trump, da violência urbana mexicana, da imigração e como essas mazelas estão afetando a população.o México.

Um dos problemas identificados por Fran foi a escalada da violência urbana e como ela é prejudicial para os importantes trabalhos sociais desenvolvidos nas cidades mexicanas.

Ciudad Juarez, por exemplo, que já foi considerada a cidade mais violenta do mundo, está voltando a ter muitos homicídios, sequestros, roubos e feminicídios. E uma das coisas que me mostrou como é perigoso tocar trabalhos sociais por lá, há uma perseguição não apenas às mulheres jovens e de baixa renda. As próprias ativistas que cobram a polícia e o governo para que tomem atitudes em relação aos feminicídios acabam também sendo assassinadas. Uma situação terrível”, conta o Fran.

O assassinato de mulheres e ativistas de causas sociais no México é muito elevado, e Fran explica que por isso é muito difícil achar uma forma de que o voluntário VV trabalhe e faça a diferença com segurança no país.

“Espero que a situação mude em breve para que a gente possa fazer a diferença por lá também. Até lá, vamos continuar monitorando a situação!”.

Experiência de vida através do VV Thinking

March 31, 2017 1:33 pm

Luise Magalhães Valentim é uma jovem de 25 anos, que mesmo com pouco tempo de vida, já faz muito, todos os dias, para fazer a diferença e mudar a vida das pessoas à sua volta. Luise é Engenheira Ambiental, Consultora Ambiental da Agrosuisse, Coordenadora de Projeto Sócio Ambiental da Agência Somar, Diretora de Projetos da RISO – Resgate da Infância Social, Coordenadora de Sustentabilidade do Projeto RUAS – Ronda Urbana dos Amigos Solidários e Representante do Projeto Cidades Invisíveis no Rio de Janeiro.

Luise particiou do VV Thinking Rio 2016 e, às vésperas do lançamento do VV Thinking Social Aid, o workshop da VV que vai formar empreendedores sociais para criar e gerir projetos sociais,  nos enviou esse texto sobre e importância e influência do curso em sua vida pessoal e profissional.

O VV Thinking Social Aid vai acontecer entre os dias 7 e 10 de junho! Inscrições abertas! 

VV Thinking Workshop Social Aid


por Luise Magalhães Valentim

Depois de concluir uma faculdade de engenharia ambiental, cursar uma pós graduação, passar por inúmeros cursos de especialização, atuar voluntariamente em diversos projetos e ong’s, eu ainda estava em busca de algo extraordinário, que me desse um panorama realista e mais profundo da vida, que me tornaria mais confiante e que me abrisse novas portas para o conhecimento.

Por possuir esse instinto ou estilo de vida de sempre querer e fazer bem ao próximo, transformando vidas, comunidades e quem sabe cidades, me aventurei a ingressar no Curso de Empreendedorismo Social da VV Thinking. Para mim seria a perfeita oportunidade de conhecer inúmeros cases de profissionais e empreendedores incríveis, profissionais renomados no mercado, que me auxiliariam a buscar melhores maneiras de atuar nas diversas ações sociais e de aliar isso a minha rotina pessoal, profissional e empreendedora.

O curso VV Thinking busca fomentar e formar novos líderes sociais, e tenho certeza que a semente foi plantada e semeada perfeitamente em todos os alunos presentes nesse primeiro curso. O curso ajudou a formar não somente empreendedores sociais, mas principalmente propiciou a sermos melhores como seres humanos, como cidadãos, com mais consciência, mais amor, com um melhor autoconhecimento próprio, onde afirmo com toda a convicção de que ter me aventurado e concluído o curso da VV Thinking, foi uma das minhas melhores opções de escolha da minha vida.

Foram três meses com aulas aos sábados onde a sintonia e energia estavam presentes durante todos os dias, o que nos gerou magníficos ensinamentos e experiências únicas, algo fora do comum e de qualquer expectativa que nós alunos poderíamos ter cogitado viver. Foi além de uma capacitação, um curso de ensinamentos e cases, foi grandiosamente importante ao ponto de mudar destinos e caminhos de vida de pessoas que precisavam ter um pouco mais de coragem de ser quem exatamente são e de viver seus belos sonhos.

Percebi que por mais sábios que sejamos, quando atuamos e empreendemos com negócios de impacto social, necessitamos constantemente de ferramentas, materiais de apoio, de possuir uma visão humanitária, de ter foco no seu objetivo e principalmente de nos auto conhecer para assim nos mantermos sempre em constante equilíbrio e crescimento produtivo.

Ter um propósito claro na vida não é só saber onde se quer chegar, é sobretudo, dispor da energia necessária para enfrentar a trajetória, que certamente não será fácil, mas sem dúvida nenhuma, que cada um tem seu próprio jeito de lidar com isso. Acredito também que para sermos bem sucedidos, precisamos passar por grandes transformações e para mim o curso foi fundamental nesse quesito. Através do curso, dos inúmeros mestres e educadores que tive, das inúmeras experiências de vida e das ferramentas apresentadas, me fortifiquei e fui em busca daquilo que almejava. O resultado não poderia ser diferente, no decorrer dos meses seguintes a finalização do curso, fui conquistando pouco a pouco tudo aquilo que me direcionei.

Quando desenvolvemos um negócio social, é como se estivéssemos desenvolvendo uma semente, esta que uma vez desenvolvida, qualquer um pode plantar. Esse é um pouco do sentimento de certeza que a experiência de participar do curso de empreendedorismo social da VV Thinking me trouxe.

 

As Sociedades Tribais

March 24, 2017 3:44 pm

Por Manoela Gonçalves

Lembro quando eu era mais jovem e aprendi sobre as sociedades tribais na escola. Quando me ensinaram, não foi dito esse nome. Essas sociedades foram todas generalizadas na figura do índio. Um homem primitivo, quase que um personagem mitológico, que possuía hábitos não muito comuns, se relacionava com os animais e levava uma vida natural. Lembro que sempre tinha um apito. Não sei porquê, mas nos diziam que os índios apitavam. Tinha o cocar também e o fato deles andarem nus. Acho que sempre foi tudo que eu soube a respeito das sociedades tribais.

Não me recordo de ter escutado de algum professor que elas todas haviam sido extintas, mas eu sempre tive a impressão de que essas sociedades não existiam mais. Como se elas tivessem evoluído e virado o homem moderno. Quando estudei na escola o processo de catequização dos índios, tudo isso pareceu bem normal. Na minha sala a maioria fazia catequese, então catequese devia ser algo que os índios também deviam fazer. Pensava que era para o bem deles, ou que eles estavam com vontade. Não sei o porquê, mas da forma que me foi passado, aquilo nunca me gerou nenhum tipo de revolta, afinal, os índios eram os primitivos, isso era um bem para sua evolução.

Depois que cresci, comecei a ter muito interesse na organização dos povos africanos. Comecei a me questionar como seriam esses povos antes da chegada dos europeus. Pois na escola a única coisa que aprendi sobre o povo africano é que ele havia sido escravizado, como se o preto tivesse começado a existir por volta de 1600, assim como os índios que pareciam só ter existido a partir de 1500. Nessa minha busca cheguei nas sociedades tribais.

A África era toda dividida em sociedades tribais, e isso a gente escuta por alto na escola. O que a gente não aprende a fundo é como se baseavam essas sociedades, como elas se organizavam, quais eram suas leis, o sistema que seguiam e qual papel que cada um desempenhava. Depois que comecei a estudar a respeito das tribos pude perceber que de primitivos ou menos evoluídos eles não tem nada, muito pelo contrário. Assim como as nações, as tribos também possuem seus chefes de Estado, possuem organização própria, leis, funções e tradições. Cada tribo tem sua forma de governo, mas elas geralmente são regidas por leis semelhantes, todos seguem as leis da Natureza e a respeitam como sendo a sua maior preciosidade.

Pode até existir agressividade entre os humanos de tribos diferentes, ou conflitos internos. Mas a agressividade dos tribais não é prejudicial à natureza. A organização da tribo se dá em total sintonia e pertencimento à ela. Eles não se percebem como sendo superiores, e sim uma parte da natureza que precisa se sintonizar com as outras partes. Por isso nas nações tribais dificilmente tem catástrofes, vazamentos, poluição ou algo do tipo.

Cada sociedade possui sua cultura especifica, e é muito difícil aceitar a cultura do outro. Tendemos a pensar que a forma que fomos ensinados e criados é a forma correta e muitas vezes pensamos ser a única. Sem dúvidas na cultura em que vivemos ,os tribais parecem até excêntricos, um povo distante de nós. No entanto o problema não é simplesmente considerar os tribais diferentes. O grande problema está na total falta de respeito com a sua organização.

Eles não são menos evoluídos, optaram em viver uma vida natural. Eles possuem sua forma de governar. A interação com as nações tribais deveria ser semelhante à interação entre qualquer nação. Eles não devem ser educados por outros costumes, não devem ter suas terras invadidas, suas leis desrespeitadas, seu rios tomados e nem devem querer se submeter ao um sistema diferente ao que eles acreditam. Nenhuma organização é superior à outra, eles tem a organização deles e merecem respeito.

É muito importante também nos darmos conta de que as sociedades tribais não foram extintas, como às vezes tive a impressão. O tribal, o indígena, ele não é uma mitologia. Ele é apenas mais um tipo de organização que temos no mundo. É sim a forma mais antiga que o ser humano tem de se organizar, mas essa forma ainda existe e está presente em diversos locais.

Às vezes não nos damos conta de que a mesma história que ouvimos na escola ainda se reproduz em nossa sociedade atual. Aqui no Brasil os tribais indígenas perdem cada vez mais as suas terras e passam pela pressão de ou ter que se submeter ao sistema do invasor ou de ser extinto. Os tribais não conseguem entender o porquê de pagar imposto sobre uma terra em que eles sempre serviram. A moeda de troca dos tribais é diferente da nossa, como que ele podem pagar impostos sobre terra?

Por mais que eu tenha bastante simpatia pelas organizações tribais, penso que deva ser muito difícil viver em uma, já que fui criada de forma tão diferente. Seria realmente um desafio, algo bastante difícil, muitas pessoas diriam que é impossível. Então porquê os tribais tem que viver da forma que eles não acreditam e da maneira que não foram criados?

Pra eles é um terror viver da forma que vivemos distante da tribo e do senso de comunidade e coletividade. Eles vivem na chamada sociedade da abundancia, como trocar isso pela sociedade da escassez? Aqui no Brasil muitos indígenas preferem o suicido a vida fora de sua tribo. Nesse sistema global, o tribal é o mais desprotegido, sendo assim o indígena aqui se encontra numa condição muito vulnerável. Os governos precisam compreender e aceitar as organizações tribais e percebê-las como nações, para que assim as tribos possam desempenhar o seu papel em sua própria comunidade e na esfera global.

Silvia Castro, o voluntariado unido à paixão pelas câmeras

March 16, 2017 6:18 pm

Meu nome é Sílvia Castro, tenho 34 anos e sou formada em Publicidade e Propaganda. Trabalhei durante cinco anos como redatora em agências de publicidade em BH, até me mudar para o Rio de Janeiro. Lá, eu trabalhei durante oito anos na TV Globo com roteiro, direção e edição e fiquei apaixonada por essa área. Ir até lugares que eu nunca iria e conhecer pessoas que nossos caminhos dificilmente se cruzariam, se não fosse o meu trabalho, me deixou muito encantada.

Em 2015 eu retornei a BH com toda minha família e, apesar de ter sido uma decisão acertada, foi muito difícil. Fiquei por um tempo focada em questões familiares, cuidando dos filhos ainda muito pequenos, mas sempre pensando em formas de voltar ao mercado de trabalho, sem abandonar os vídeos que eu tanto gosto de criar e produzir. Num momento de busca por algo que me desse uma chacoalhada, que fosse realmente transformador, não só para mim, mas para os outros, eu descobri a VV na internet. Comecei a acompanhar e logo anunciaram uma viagem para o sertão do Piauí, em Acauã. Senti na hora que aquele convite era para mim e não hesitei em ir. E propus que fizesse não só as missões de voluntariado, mas que fosse gravando também, produzindo assim um documentário.

E eu estava certa. Foi uma viagem transformadora, onde eu ajudei muito, mas certamente fui a mais ajudada. Me reencontrei, me reconectei, experimentei novas facetas que eu ainda estava descobrindo que tinha e a vivência com os outros voluntários foi algo extremamente enriquecedor. Conviver com tantas pessoas diferentes, com faixas etárias diversas, profissões distintas e todos com o mesmo propósito foi muito inédito e marcante.

Produzir e editar meu documentário de Acauã foi muito prazeroso. Fiz tudo com muito cuidado, com muito amor e até hoje me emociono quando revejo pela milésima vez! Claro que cometi alguns erros técnicos, foi minha primeira experiência como videomaker, mas que deixou um baita de um gostinho de quero mais. E logo veio a próxima oportunidade: Haiti. Sempre me sensibilizei muito com a situação social dos haitianos e o quanto ela foi agravada com o terremoto (2010) e o furacão (2016). Quando vi a possibilidade de ir, já visualizei mais um lindo documentário que poderia ser produzido. E corri muito atrás para que isso se tornasse possível. Busquei várias empresas propondo parcerias, patrocínios, apoios, mas o prazo era muito curto. Foi aí que resolvi fazer um crowdfunding e consegui arrecadar a quantia necessária para viajar.

A notícia do financiamento coletivo chegou até o Atlético Mineiro, o Galo, e eles me deram 50 chuteiras para eu levar como doação ao time Pérolas Negras. E mais uma vez vivenciei momentos únicos na minha vida. Mais uma vez o grupo de voluntários foi sensacional, as ações propostas foram muito impactantes e a mais beneficiada certamente fui eu.

Procurei não cometer os mesmos erros do documentário de Acauã, adquiri outra câmera para melhorar a qualidade da imagem e o resultado ficou ainda melhor que o do Sertão. Produzi também um vídeo exclusivo para o Galo divulgar a doação que foi feita e o retorno foi super positivo.

E agora vem aí o Líbano. O destino por si só já me conquistou, mas a proposta que a VV elaborou para os voluntários foi de uma sensibilidade tão grande que comecei a criar o roteiro de gravação no mesmo dia. Procurando sempre evoluir profissionalmente e produzir conteúdos de melhor qualidade, tanto pela narrativa quanto imagens, estou contando com a parceria de uma grande amiga e roteirista Claudia Thevenet e o super e importantíssimo apoio da produtora Base #1 na pós-produção.

Participar de viagens de voluntariado aliado ao meu trabalho de videomaker é tudo o que eu quero fazer. Foi a junção perfeita da satisfação pessoal com a profissional. Seja ao lado da minha casa, em outro estado, em outro país.

Aonde o meu coração balançar e eu sentir que devo ir, farei de tudo para estar lá com uma câmera na mão, dando voz a quem tanto precisa falar e exibindo o que muitos precisam ver.

Os refugiados e o Turismo de Empatia de Talita Ribeiro

March 10, 2017 1:07 pm

Viajar para entender a realidade pelos olhos de quem vive uma determinada realidade no dia-a-dia. Estar perto das pessoas, ouvir delas como elas enxergam aquela situação. Saber como as pessoas que sofrem as consequências de uma determinada situação se sentem. E, ainda que não seja o principal foco, dar dicas turísticas.


É assim que Talita Ribeiro explica o conceito do Turismo de Empatia, nome de sua série de livros que começou com o “Refugiados no Oriente Médio”. O primeiro livro da série conta a experiência da autora em sua viagem para a Jordânia em novembro de 2015, para conhecer projetos que atendiam refugiados. Diante de tudo que viu, Talita ficou tocada pela situação e decidiu não apenas escrever os livros, mas também doar todo o lucro que a obra lhe rende ao projeto da Família Aziz. “A família Aziz me fez querer entender o que é a situação de refúgio”, explica Talita.

A autora conversou com a VV e contou como foi sua viagem, o que chamou sua atenção e quais são os seus planos pra continuar fazendo a diferença para os refugiados.


VV: Talita, como surgiu o Turismo de Empatia?

Talita: Em novembro de 2015, em meio à crise de refugiados, eu decidi ir pra Jordânia e Iraque pra ver como era a situação de perto. Pra entender. Quis atender projetos que atendiam refugiados. Isso inclusive foi o que me aproximou da VV porque eu pedi informações antes de viajar pro André (Fran, cofundador da VV). Quando eu cheguei na Jordânia, conheci a Família Aziz e quis muito ajudar. Eles me fizeram querer entender o que é a situação de refúgio, a situação daquelas pessoas.

Depois de um mês com as pessoas, conhecendo as histórias, os campos de refugiados, eu decidi ajudar. Escrevi o livro, fiz um financiamento coletivo e lancei de forma independente. Todo o lucro da venda foi enviado pra Família Aziz, e continua sendo enviado mesmo depois que o livro está saindo pela editora (Enkla). Até agora mais de 30 mil reais foram arrecadados e enviados.

E você sentiu nas pessoas a diferença que fez, pôde ter esse contato e ver isso?

Eu voltei na Jordânia em maio de 2016. Não pude ir ao Iraque por conta do acirramento do conflito com o Estado Islâmico. Mas na Jordânia o que eu vi foi incrível. Muitas pessoas foram lá e também decidiram doar, ajudar, depois de ler. E com o que arrecadamos, a família Aziz fez uma escolinha! Eu fiquei muito emocionada. Foi o melhor investimento da minha vida! Aquelas crianças não iam à escola há mais de dois anos e eles fizeram essa escolinha. Foi muito impactante ver no que o dinheiro se transformou, parte do nosso trabalho. No Iraque eu vi as fotos. O dinheiro serviu pra patrocinar dois times de futebol de crianças refugiadas. Elas puderam participar de um campeonato de futebol e um dos times foi campeão. Foi muito legal ver as crianças tendo a sensação de conquistar algo depois de perder tudo.

Quais os próximos passos do Turismo de Empatia?

O primeiro livro da série foi esse o “Refugiados no Oriente Médio”. Agora eu estou escrevendo um outro livro mas não é dessa série. É sobre crianças em situação de refúgio, um livro infantil. Porque de tudo, o que mais me impressionou e chamou atenção foi isso: a situação das crianças. Imagina a criança não ter o que fazer, como aprender, não ter como brincar. Isso é o que me choca mais. Pra continuar a série eu pretendo ir pra África e também focar nas crianças, mais pro fim do ano.

Ir pra África em um dos projetos da VV? 

É com certeza uma das minhas opções. Fazer a diferença junto com a VV, quem sabe na África também?

Moonlight traz luz à consciência dos questões sociorraciais

March 3, 2017 2:43 pm

 

Confesso que nunca fui muito fã de cinema. Até consigo perceber sua importância e função nos filmes que retratam a história, ou em documentários. Entendo também sua função em entreter as pessoas, mas dificilmente sentia-me entretida no cinema.

Moonlight: divulgação

E eu sabia o motivo. Algumas vezes pensava que tinha como esquecê-lo, mas era só assistir algum filme e estava ali explícito para mim: dificilmente eu via pessoas pretas nas telas. Parecia que cinema era coisa de pessoa branca. Até nos filmes históricos, a retratação embranquecia os personagens. Às vezes, apareciam uns atores pretos, mas geralmente eram personagens estereotipadoso escravo, a doméstica, o pivete, o traficante, o “nigga” bem dotado que gosta da loirinha ou algo do tipo. Dificilmente eu assistia a algum enredo que retratasse de forma natural a pessoa preta.

A premiação do Oscar para mim também nunca havia feito sentido algum. Era sempre aquele desfile nos fazendo crer que não havia bons atores ou diretores pretos. Às vezes aparecia um ou outro, mas geralmente o Oscar, o cinema e a teledramaturgia sempre foram meios quase que restritos aos brancos. E mais que isso, essas grandes indústrias, cinematográfica e teledramaturga, muitas vezes foram ferramentas para reforçar estereótipos e padrões e legitimar uma estrutura sociorracial desigual.

Mas por menos otimistas que possamos ser, parece que realmente algo está mudando. Pois bem, acordei na segunda, dia 27 e logo li que o Oscar havia tido uma noite histórica, pois um filme de produção independente, de orçamento baixíssimo, com um diretor preto, elenco preto, retratando a vida de pretos de forma naturalizada em vez de estereotipada, como usualmente ocorre, havia vencido a categoria de melhor filme. Moonlight  era o nome do filme. Tive que voltar ao cinema depois de quase três anos para conferir um filme que me representa e acredito.

Saí do filme bastante sensibilizada. Não é um filme só sobre racismo, nem só sobre homofobia, (apesar de retratar de forma bastante sensível e natural a jornada de libertação homossexual e todas as dificuldades encontradas nesse caminho) é um filme sobre a grande maioria da população preta. É claro, é impossível retratar a realidade de um preto sem associar o racismo sofrido no dia a dia, mas a temática central vai além. É sobre a vida do preto gay periférico e a forma como sua vida é conduzida.

É extremamente diferente se libertar gay no ambiente da periferia, onde a violência masculina impera, assim como a construção deturpada da masculinidade. Um ambiente em que a sexualidade tende a desenvolver-se bem cedo, onde as pessoas estão mais vulneráveis a construções sociais deturpadas. Onde os homens vivem sob uma pressão muito grande de ter de ser alguém nascendo ninguém, e o caminho da violência e do tráfico demonstram ser a alternativa e oportunidade mais viável.

Um ambiente em que muito comumente as mulheres são abandonadas por seus parceiros e tem de criar seus filhos sozinhas, onde dificilmente a criança convive com a figura paterna e cresce sem referência masculina positiva. Um lugar hostil o suficiente para a droga ser mais do que para diversão, e sim para anestesiar a vida.

É nesse ambiente que a maioria da população preta nasce e convive, e é esse ambiente que é retratado no filme.  O personagem principal é um preto gay periférico, filho só da mãe que é dependente química. O filme retrata com bastante sensibilidade e fidelidade as dificuldades cotidianas que atingem grande parte da população. Moonlight traz luz à consciência dos problemas sociorraciais.

Minha irmã me disse que não gostou, pois achou muito triste. “Filme de preto é sempre triste”, disse ela. Eu respondi que é a realidade da maioria e o que me encantava no filme e me trazia esperança é que essa triste realidade está sendo explicitada para todo o mundo. E o melhor de tudo, está sendo contada por pessoas que viveram essa triste realidade. Aí é que está a sensibilidade e a verdade dessa história. O diretor morou na região onde se passa o filme, na premiação disse que estava querendo representar sua comunidade e o fez da melhor maneira possível.

Quando imaginaríamos que um jovem da periferia conseguiria gritar sua triste realidade assim para o mundo inteiro ouvir atentamente? Quando imaginaríamos que isso renderia prêmios em vez de censura?

É alguém vindo da periferia mostrando a dura realidade. 

É impossível discordar da minha irmã, realmente o filme é triste. Mas é essa a realidade e ela precisa ser mostrada a todos. Isso para mim é arte, vai além do entretenimento. Não é um filme para divertir e sim para trazer consciência. Moonlight me deu a esperança de que o cinema pode e deve ser utilizado para aproximar realidades e assim contribuir para um desenvolvimento mais igualitário.  Essa vitória na maior premiação do cinema mundial sem dúvidas é um marco de um momento um pouco melhor em que vivemos.

Manoela Gonçalves

RUAS – Ronda Urbana de Amigos Solidários

February 23, 2017 5:19 pm

Por Manoela Gonçalves

Outro dia estava eu andando em Copacabana e reparando a quantidade de moradores de rua por lá. Lembrei que quando me mudei para o Rio, essa foi uma das coisas que mais me chocou. Parecia que eu estava no purgatório ao ver aquele pessoal penando pelas ruas. Alguns eu já até conhecia pela fisionomia (tem um que mora na Miguel Lemos e que sempre cumprimento). Eu já sabia em que rua cada um “morava”, apesar deles estarem sempre se mudando. E percebi que eu não possuía nenhum tipo de relacionamento com esses meus vizinhos. Eu, que cresci brincando com meus vizinhos, que sou super a favor da política de boa vizinhança, que vivia reclamando que nenhuma coroa do meu prédio simpatizava comigo (meus planos de ganhar feijão das boas velhinhas nunca se concretizavam)… não tinha nenhuma simpatia por esses meus vizinhos.

Na hora fiquei um pouco envergonhada de mim mesma, por ter sido preconceituosa, ter tido medo, e principalmente e consequentemente, de não ter conseguido, em quatro anos, ajudar efetivamente nenhum deles. Já dei casaco, cobertor, mas nunca parei para conversar ou ouvir a história de algum deles. Logo eu, que também adoro “assuntar”.

Decidi que isso não iria acontecer novamente.

foto: Bruno Alves/RUAS

Na próxima oportunidade eu seria mais solidária com essas pessoas. Mas, caramba, também não são pessoas que estou acostumada a lidar. Qual seria a abordagem correta? Será que iriam me roubar, só estariam interessados no dinheiro? E se quiserem minha amizade, devem ser muito problemáticos? Quem seriam essas pessoas? Eu sabia que não era assim, que não podia simplesmente chegar sozinha e abordando meus vizinhos desafortunados simplesmente com políticas de boa vizinhança.

Então, lembrei da Luise, uma amiga que coordena o projeto Ronda Urbana de Amigos Solidários- RUAS! Acho que de repente seria isso! Encontrar amigos que estivessem com uma mesma intenção de se aproximar dessas pessoas invisíveis, que só conseguem se fazer visíveis quando estão nos “incomodando”.

Pedi para que ela me incluísse em uma de suas rondas e lá fui eu! Antes da ronda, os amigos solidários nos orientam sobre como agir. Eles passam muita informação interessante, mas a que mais me chamou atenção, e que ficou na minha cabeça a noite toda, foi a de ser sincera. É fundamental levar o que você tem em você para o lugar e para seu interlocutor. Ser sincera. E é impressionante como a sinceridade contagia! E, assim, os moradores de rua corresponderam com muita sinceridade. Eles sabem exatamente os motivos por que estão ali. São pessoas como todos nós: possuem seus defeitos, foram muito exigidos da vida, entraram por caminhos errados, muitas vezes sem volta ou simplesmente viram a vida naturalmente lhes levando para essa situação. A droga é um anestésico muito comum para quem está na rua e, muitas vezes, o motivo pelo qual a pessoa chegou a esse ponto. Mas nem todos usam drogas. Todos têm muita fé, mesmo os mais agressivos. Uns nos viam como missionários apesar do projeto não ter qualquer vínculo religioso. No final, um dos mais arredios puxou um “Pai nosso”. O nome de Deus acalma. Olhar nos olhos também. Por dentro dos olhos todos eram bons.

Não dá para generalizar, cada um ali tinha a sua história. Têm os que nunca trabalharam, existem os que trabalham até hoje mas não tem onde morar.  Um deles era de Belo Horizonte, que vendia doce em tudo quanto é lugar. Eu mesma já tinha comprado uma paçoquinha com ele. Outro já tinha sido feirante até pouco tempo. Teve um que me contou que era muito talentoso, fazia sandálias pra vender, já tinha vendido muito na praia, mas agora não tinha dinheiro nem para comprar o material para produzir novas sandálias. Tinha fé que a ajuda chegaria logo menos.

Cheguei em casa já de madrugada depois de um dia cansativo, mas não conseguia dormir. Estava com muita energia. Com muita coisa boa dentro de mim. Antes de sair para a ronda, os amigos solidários me perguntaram porque que eu estava ali. Eu respondi que tinha coisa boa dentro de mim e que queria passar adiante. Terminei a ronda com mais coisa boa ainda! É impressionante como aquelas pessoas possuem uma sabedoria de vida. Não proposital. E de repente eles nem saibam que a possuem, mas eles tinham muitas coisas boas para passar. Apesar de tudo, eles agradeciam por tudo o que a vida lhes proporcionou, como o nosso encontro. Eles, com tudo que a vida lhes reservou, eram agradecidos à vida.

Acho que essa é a maior sabedoria. Vendo ali de perto tantas histórias fortes, era impossível não ficar agradecido também. É muito bom não ter motivo pessoal significativo para reclamar. E é muito bom saber que mesmo as pessoas que vivem na miséria podem ser tocadas pelo poder do amor.