“Eu sou a cota.” – Manoela Ramos e o racismo estrutural da nossa sociedade

August 1, 2017 3:48 pm

Minha mãe sempre me contava que no Brasil a maioria da população é preta. Então eu ia pra escola particular de arte e educação onde eu, minha irmã, e mais três éramos os únicos pretos da escola. Tinha mestiços, mas esses preferiam se associar aos brancos. Nos restaurantes, no cinema, na praia ou em qualquer outro tipo de lazer, a mesma coisa. Via os pretos servindo. Sempre. Desfrutando, apenas eu e minha irmã. Às vezes tinha mais um.

Eu mesma quase não tinha amigos pretos, só aqueles filhos de amigos da família e os primos.

Depois fui morar no Rio para fazer faculdade e ainda assim eu não via pretos por lá. Eu morava em Copacabana! E ah… lá eu via muitos. Tinha preto morador de rua pedindo e muitos pretos servindo. Às vezes via umas crianças pretas sendo revistadas pela polícia. Na praia, se eu quisesse ver pretos era bom que me localizasse perto da descida de alguma favela Aí eu via meu povo. Fora isso, não via pretos. Nos bares de Copa, Santa Tereza, na São Salvador, do Leme ao Pontal, os pretos são os que estão servindo.

Eu antes não pensava em segregação racial, eu pensava que isso tinha acabado com o fim da escravidão, como se a escravidão tivesse tido um fim. Eu antes vivia na ilusão da segregação social. Até sabia que a maioria dos pretos nasciam pobres, como meu pai, mas pensava que isso tinha relação só com o passado e não também com o presente.

Sou uma preta classe média. Sempre estive ao lado dos brancos, desfrutando da minha classe. Era mais cômodo enxergar as coisas sob a ótica da segregação social. Pois assim eu não estava fazendo nada demais em desfrutar com a minha classe. Como se fosse sorte, quase uma benção. No fundo, todos que estão desfrutando de seus méritos, seus e dos familiares, acreditam e legitimam a meritocracia. Eu pensava que eu tinha mérito em desfrutar, já que meu pai trabalhou tanto para dar tudo de melhor pra minha família.

Depois de um tempo isso começou a me incomodar muito e na época eu pude me dar ao luxo de fazer terapia. Cheguei dizendo que estava angustiada, pois era muita gente passando necessidade e que isso me deixava mal. A terapeuta me perguntou o porquê disso me deixar mal, já que em muitos não provocava reação alguma. Na hora pensei e veio a resposta: porque eu só via os pretos na pior, era algo quase que comigo. Eu me via ali, mas ao mesmo tempo estava ao lado dos brancos desfrutando.

Manoela Ramos, colunista do blog da VV

Manoela Ramos, colunista do blog da VV

Decidi que não queria mais fazer parte disso e dessa vez me mudei para Aiuruoca, no Sul de Minas. Fiquei um ano morando em um lugar onde iam pessoas muito especiais. Pareciam que não estavam presos a essas ilusões criadas, não faziam discriminação alguma, era um local era livre, muitos homossexuais, mochileiros, galera hippie. Por um momento pensei que havia me encontrado.  Pessoas sem preconceito, falando de amor e paz, renegando o sistema que o branco criou. Mas aí me dei conta de que poucos foram os pretos que vi passando por lá, afinal, só desapega quem tem para desapegar.

Foi então que eu vim morar em Salvador, onde 87% da população é preta, onde a cultura africana é super difundida e consumida inclusive por brancos, onde os deuses africanos são reconhecidos e respeitados, e ainda assim o preto está numa desvantagem incalculável aqui. Os bairros de classe média me lembram o Rio de Janeiro onde só vejo os pretos servindo e os brancos desfrutando.

Eu antes pensava que o maior problema que nós pretos vivíamos era em relação a demonização da nossa cultura pois foi esse o problema que sempre me atingiu. Mas aí eu entendi que o grande problema é a pobreza material que a grande maioria do povo preto nasce, aí é que está a desvantagem. O racismo é um problema estrutural e a grande maldade do racismo é manter os pretos em condições miseráveis em detrimento do desfrute dos brancos.

E foi assim desde que as raças começaram a se relacionar. A segregação é racial, a questão social existe apenas para legitimar esse tipo de segregação em um mundo regido pelo dinheiro.

Pensar que a sociedade é dividida agora por classes sociais e não mais por raça, como no tempo da escravidão (como se a escravidão tivesse tido um fim..), é só uma forma de se eximir da responsabilidade.

Tudo bem, é certo que existem as classes sociais, mas essas servem apenas para comprovar que a população preta continua vivendo na miséria e ocupando majoritariamente as classes mais vulneráveis e exploradas da população.

Tá certo também que existe a possibilidade de mobilidade de classe, mas até isso, se você analisar uma periferia, os que mais ascendem são os brancos. Mesmo nas periferias, normalmente são eles os donos de estabelecimentos e são essas as meninas que serão as sortudas escolhidas para virar modelos, cantoras ou fazer comerciais.

O sistema foi criado por brancos e para brancos. O sistema em que vivemos favorece o estereótipo. Eu sei, é muito assustador perceber que até hoje nossa sociedade se configura assim. Mas é a realidade. Acredite, nascer branco na classe média não é mérito, nem sorte nem benção. É o reflexo de que nossa sociedade é estruturada a partir da raça. E nascer preta na classe média é ver essa segregação muito explícita desde pequena.

A cota não simboliza uma sociedade igualitária. Pelo contrário, explicita o quão racista é a nossa sociedade. Ser uma preta classe média é ver explicitamente a segregação.

Afinal, sou a cota.

Elisa Mansur, um ícone da nova geração que faz o bem

June 22, 2017 5:49 pm

Elisa Mansur é uma brasileira que nos dá orgulho. Elisa é uma jovem empreendedora que vive a vida em busca de mudar os cenários em que passa para melhor. Com anos de experiência na área da educação, inclusive como voluntária, ela passou foi para a Draper University, no Vale do Silício, se aperfeiçoar como empreendedora social, que vai atrás de inovações tecnológicas sustentáveis para, assim como a VV, fazer a diferença. Elisa foi Voluntária VV em Jardim Gramacho!

Tivemos a oportunidade de entrevistar a Elisa aqui pro #BlogdaVV nessa última semana e aprender muito com ela sobre o empreendedorismo “de impacto”, sobre sua plataforma, a DoeBem e também trazemos muita coisa que vai te inspirar a ser #voluntário!


Você é descrita como alguém que ama o empreendedorismo social e quer deixar um impacto positivo no mundo. Algo sustentável. Como nós somos da VV, uma empresa que É isso, queria que você definisse o que é o empreendedorismo social hoje, num amplo sentido? E qual o impacto de surgir mais dessas iniciativas hoje?

Eu até prefiro descrever o empreendedorismo social como “empreendedorismo de impacto” e defini-lo como uma ferramenta poderosa nas mãos daqueles que gostam e sabem fazer acontecer, e que têm o objetivo de, acima de tudo, maximizar impacto positivo na sociedade. Todo negócio precisa resolver um problema. No caso do empreendedorismo de impacto, esses problemas podem ser a evasão escolar, a extrema pobreza, doenças crônicas, entre outros.

Eu acredito fortemente no poder de cada indivíduo em promover a mudança e transformar uma realidade que não nos deixa satisfeitos. E hoje, mais do que nunca, temos várias ferramentas à disposição para fazer isso acontecer. Com mais dessas iniciativas, nos tornamos os responsáveis pela construção do futuro que queremos ver para o Brasil e para o mundo. Não precisamos mais terceirizar essa responsabilidade para ninguém!

Você tem várias experiências de voluntariado na área da educação. Como foram as suas e como isso é algo necessário no planeta de hoje? 

Eu comecei a fazer trabalho voluntário através de um programa da minha escola em 2007. A proposta era ajudar alunos de escolas públicas no ensino de matérias como Português e Matemática. Essa primeira experiência me estimulou a fazer parte de outras iniciativas voluntárias mais tarde, organizando atividades lúdicas para crianças em creches comunitárias e hospitais públicos, participando de algumas reformas em escolas e, mais recentemente, mentorando alunos de alta performance do Ensino Público que receberam bolsas para estudar no Ensino Privado. Mais do que ter promovido o meu envolvimento de longo prazo com essas atividades, minhas experiências de voluntariado definiram a minha decisão de vida e de carreira de focar integralmente no empreendedorismo de impacto.

Eu acredito que experiências de voluntariado, sejam elas na Educação, Saúde ou em qualquer outra área, dão uma perspectiva diferente de Brasil e de mundo ao voluntário e um tipo de realização pessoal única. Eu vejo o voluntariado como uma forma de nos trazer à essência do que somos – nos tira do rótulo diário de empreendedora, pai, amiga, advogado, mãe, médico, estudante, chefe, empregado etc. e nos coloca de volta no nosso papel mais importante: seres humanos. No final das contas, o que realmente importa é querer fazer o bem e ajudar os outros. Ser voluntária me trouxe isso.

O que é a doebem?

A doebem é também uma organização focada na promoção de impacto positivo. Foi fundada para aliar o pensamento científico com o impacto social para eliminar a extrema pobreza no Brasil. Hoje somos uma plataforma de doação (www.doebem.org.br) que faz a ponte entre doadores e organizações eficientes, que são selecionadas e recomendadas a partir de critérios rigorosos de gestão, transparência e impacto.

Nós estudamos diversas intervenções, como tratamento de doenças crônicas, missões cirúrgicas, transferência de renda, distribuição de óculos, cirurgias de catarata etc. e verificamos quais possuem evidências robustas, a partir de estudos científicos, de impacto positivo de curto, médio e longo prazo. Por exemplo, sabemos que ao investir 100 dólares na distribuição de remédios contra esquistossomose, é possível aumentar em cerca de 14 anos a presença na escola de uma grupo de crianças.

De forma geral, o objetivo da doebem é promover uma cultura de doação eficiente e proporcionar mais segurança, confiança e transparência ao processo de doação. Queremos reinventar a forma como ajudamos.

Como você acha que podemos relacionar a doebem e a Volunteer Vacations a fim de fazer a diferença no mundo?

A proposta tanto da Volunteer Vacations quanto da doebem é a doação, seja do seu tempo ao ser um voluntário através da VV ou do seu dinheiro através da doebem. São atividades complementares e que, juntas, permitem promover um Brasil mais generoso, próspero e solidário.

Como deixar um legado de mudança positiva – Coluna do Fran

June 14, 2017 3:50 pm

Com minhas viagens participando de dois programas de TV sempre vi muitos cenários de conflito, desastres naturais e locais que precisam de ajuda em suas mais básicas necessidades de infraestrutura. Era bom dar um retorno através de exibir seus problemas e questões para o publico brasileiro através de conteúdo pra TV, mas eu sentia que aquilo era muito fugaz. Ficava sempre a vontade de fazer algo mais impactante e de deixar um legado eficiente e contínuo para tantas pessoas que cruzavam meu caminho e faziam a diferença em minha vida com seus ensinamentos e exemplos de vida.

Foi então que conheci a Mari. E assim nasceu a VV, para cumprir essa minha angústia, por assim dizer. E foi perfeito!

A VV tornou-se a ferramenta perfeita, pois com ela conseguimos definir onde impactar, como, quais as necessidades de cada local, que tipo de ação executar… Tudo isso casado com a experiencia histórica, cultural, de quebra de paradigmas que toda viagem pode proporcionar. Além de tudo isso, conseguimos casar essas experiências com a parte turística de países incríveis! E pouco explorados! E esse legado da VV acaba se multiplicando centenas de vezes quando desenhamos um projeto como o VV Thinking!

Na semana passada inauguramos mais um Workshop #VVThinking! O tema dessa vez foi “Social Aid”, e coube a mim abrir com a “aula show” (no melhor estilo Ariano Suassuna) sobre Geopolítica em Zonas de Intervenção Humanitária. Para variar, a qualidade da turma ditou o ritmo do papo que abordou, além do tema central, questões como novo mercado de trabalho, metodologias de ensino, carreiras não-tradicionais, consumismo, meio-ambiente, capitalismo consciente, empreendedorismo no terceiro setor, quebra de preconceitos… Só para citar algumas. Um misto de intercâmbio de ideias, networking, brainstorm, terapia de grupo (é brincadeira) com uma galera que em comum tinha a vontade/desejo/necessidade de fazer a diferença tatuada na alma.

Não sei se é mais triste ou revigorante constatar como temos poucas (ou nenhuma) iniciativas pensando e debatendo o empreendedorismo social de maneira moderna, prática e estimulante. O mundo está mudando, a grande sacada é fazer parte dessa mudança para que ela seja positiva. O trabalho humanitário e o voluntariado não são apenas ferramentas para melhorar o mundo, mas para melhorar a nós mesmos. Como diz um dos slogans da nossa #VV: vem com a gente!

Muito orgulho ter a VV trilhando esse pioneiro caminho!

Refugiados no próprio país: os invisíveis.

May 30, 2017 11:51 am

Nenhuma organização sabe como resolver o problema. Precisamos de uma nova abordagem nas crises humanitárias.

Em artigo assinado no The Guardian, os subsecretários da ONU Tegegnework Gettu e Stephen O’Brien trazem à luz dados preocupantes sobre o número de pessoas deslocadas no próprio país.

O blog da VV traz o artigo traduzido e endossa a pergunta: O que mais podemos fazer? Como mudar essa realidade?

foto: Soe Zeya Tun/Reuters

foto: Soe Zeya Tun/Reuters

Dos 65,3 milhões de pessoas deslocadas no mundo, mais de 40 milhões, ou seis em cada 10, são deslocados internamente – refugiados dentro de seus próprios países. Eles são a maioria invisível de pessoas deslocadas.

Esses homens, mulheres e crianças estão entre as pessoas mais vulneráveis ​​do mundo. O termo refugiado significa oficialmente alguém que foi forçado a fugir do seu país. Mas, assim como os refugiados internacionais, as pessoas deslocadas internamente (IDPs) perderam tudo para conflitos ou desastres – suas casas, comunidades, bens e meios de subsistência. Ao contrário dos refugiados, porque não atravessaram uma fronteira internacional, os deslocados internos não beneficiam de proteção internacional especial.

Os deslocados internos são os que correm maior risco quando ocorre um desastre, como quando a seca entra e a fome se apodera. Não é por acaso que os quatro países em risco de fome têm um número significativo de deslocados internos. Como podemos melhorar nossa ajuda a eles?

Este é apenas um aspecto dos desafios complexos que enfrentamos, que resultaram nos mais altos níveis de necessidade humanitária desde a Segunda Guerra Mundial. A maioria toma a forma de crises que envolvem uma combinação devastadora de perigos naturais e provocados pelo homem, como se vê nos quatro países que enfrentam a fome hoje: Nigéria, Sudão do Sul, Somália e Iêmen. Essas crises costumam durar anos, causando centenas de milhares de mortes.

Nesses cenários, “business as usual” (negócios comuns) não é suficiente. Nenhum ator ou resposta pode fornecer a solução. Reconhecendo isso, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) estavam entre nove entidades das Nações Unidas, com o aval do Banco Mundial, para assinar um compromisso de uma nova maneira de trabalhar na Cúpula Mundial de Ajuda Humanitária há um ano em Istambul. O objetivo consistia em reunir os conhecimentos humanitários e de desenvolvimento, a fim de oferecer melhores soluções às pessoas que sofrem crises complexas. O plano é trabalhar em todo o sistema das Nações Unidas e com os parceiros locais e internacionais para alcançar resultados coletivos, apoiar o progresso do desenvolvimento a longo prazo, respondendo às necessidades urgentes de acordo com os princípios humanitários e trabalhando em colaboração com os conhecimentos especializados de cada organização. O objetivo é acabar com as necessidades humanitárias, não apenas para atender a essas necessidades.

Desde então, estamos colocando isso em prática. Sete países que enfrentam emergências complexas – Camarões, República Centro-Africana, Chade, República Democrática do Congo, Haiti, Somália e Sudão – têm planos humanitários plurianuais que apoiam uma maior coerência com os quadros de desenvolvimento. Na Etiópia, estamos trabalhando para alinhar as atividades humanitárias com o programa nacional de segurança social. Em Mianmar, no Chade e no Iémen, criamos novos fóruns de diálogo para coordenar a nossa análise e planejamento. Enquanto isso, o Banco Mundial comprometeu mais de US$ 14 bilhões (R$ 45,7 bilhões) nos próximos três anos para ser investido nos estados afetados pela crise com significativa ação humanitária.

Nestas crises prolongadas e recorrentes, os agentes humanitários e de desenvolvimento começaram a trabalhar mais estreitamente do que nunca. Isso é contra-intuitivo? Face a uma necessidade tão grave, devemos pensar nos investimentos em governança democrática, nos meios de subsistência e no clima e na resiliência em caso de catástrofe, em vez de nos concentrar exclusivamente no objectivo a curto prazo de salvar vidas e de nos preocuparmos a longo prazo mais tarde?

O fato é que o deslocamento, por exemplo, como tantas das questões que enfrentamos, é uma questão de longo prazo. Em média, as pessoas estão agora deslocadas de suas casas por 10 a 20 anos. Nessas situações, os humanitários tentam fornecer assistência e proteção que salvam vidas, como comida de emergência, água e assistência médica. Este auxílio é vital, mas não é suficiente para enfrentar os desafios a mais longo prazo. Muitas vezes, o que ouvimos das pessoas nessas situações é que eles não querem se tornar dependentes da ajuda.

É aqui que os atores no desenvolvimento intervêm para ajudar as pessoas deslocadas a encontrar emprego, garantir que as crianças tenham acesso à escola, acesso seguro à terra e à habitação, bem como apoiar as autoridades locais a fornecerem às comunidades de acolhimento e aos deslocados os serviços básicos, eletricidade e saúde. Os atores do desenvolvimento também ajudam a construir a resiliência das comunidades de acolhimento e deslocadas para que possam enfrentar melhor os choques futuros, incluindo a redução da pobreza e, sempre que possível, o reforço do Estado de direito, a segurança e a consolidação da paz.

A cúpula foi apenas um ponto de partida para essas mudanças e muitas outras. Seu sucesso será determinado pela forma como entregamos e somos responsáveis ​​pelas mudanças que começamos a fazer. Mas os parceiros humanitários e de desenvolvimento não podem substituir uma ação política orquestrada para pôr fim às crises, aumentar o respeito pelo direito internacional humanitário e os direitos humanos e impedir que surjam crises futuras. Será necessário um esforço verdadeiramente global para cumprir as aspirações da Agenda para a Humanidade e manter a nossa promessa coletiva de “não deixar ninguém para trás”. O PNUD e a OCHA mantêm o nosso compromisso de fazer a nossa parte. Apelamos aos outros para que façam o mesmo.

Reflexões de medo e mídia, por Manoela Gonçalves

April 27, 2017 12:54 pm

por Manoela Gonçalves

Dia desses estava eu subindo uma rua de ladeira em São Cristóvão, quando vi uma senhorinha, cheia de sacolas de supermercado, subindo um pouco mais a frente do que eu, toda cansada. Então adiantei meu passo para alcançá-la e logo fui me oferecendo para carregar suas sacolas. A senhora segurou meu braço assim meio se apoiando, disse que não precisava de ajuda para carregar as sacolas, mas que de fato estava cansada e que precisava parar um pouquinho para pegar um ar.

Eu, que já adoro assuntar, a deixei segurando meu braço e continuei esperando ela recuperar o fôlego. Nisso a senhora começou a me contar da vida dela (não sei o porquê, mas as pessoas adoram me falar de suas vidas e eu adoro ouvir) e disse que há pouco tempo ficou muito doente, que não conseguia nem sair de casa. “Um horror, minha filha”, dizia ela.

Eu, meio curiosa, meio fofa, logo disse:

– Ah, mas nem parece, a senhora está com uma aparência ótima.

Ela respondeu:

É, mas eu não saía nem de casa, meus filhos não sabiam o que fazer comigo. Eu tive aquele negocio do pânico. Fiquei com pânico, não conseguia sair de casa, eu via muita televisão, noticiário falando de bandido o dia todo, antes de dormir imaginava os bandidos entrando na minha casa, fazendo maldade com minha família, achava que quando eu saísse na rua iriam me sequestrar, me assaltar, ficava com medo de sair e ter bala perdida. Só melhorou quando o médico disse:

– Dona, joga a televisão fora!

– Não deu outra, joguei e agora tô boazinha. Até penso nos bandidos de vez em quando, mas agora é só de vez em quando, quase nunca.

Eu disse logo:

– Menina! Isso é assim mesmo! Comigo aconteceu a mesma coisa, esse negocio de televisão toca o terror na gente, deixa cheio de agonia, um horror. Meu médico também me mandou parar com a televisão.

Ela, muito surpresa e até um pouco aliviada, completou:

– Gente, achei que fosse um problema só meu, aconteceu com você também? Achei que era da idade, sei lá mas esse negócio de televisão é terrível mesmo

Moral da história: não aconteceu comigo porque antes de ficar paralisada pelo medo, deixei bastante a televisão de lado, sobretudo antes de dormir, mas acontece muito mais do que a gente imagina. Televisão é uma arma poderosíssima de controle através do medo mascarado de realidade. O mundo realmente real, o mundo de sentimento, compaixão, generosidade, o mundo de fato humano, não aparece na televisão.

A vida vivida é muito melhor e mais tranqüila do que a que a gente assiste no noticiário.  

Por que falar de apropriação cultural em uma cultura global?

April 20, 2017 7:09 pm

por Manoela Gonçalves

Vire e mexe vem à tona o assunto de apropriação cultural nas redes sociais. Dentro dos coletivos, essa é sempre uma pauta muito discutida. Pela definição, apropriação cultural é a utilização de elementos específicos de uma cultura por um grupo cultural diferente. Por definição, apropriação cultural parece sem nexo dentro de uma cultura globalizada.

Mas o que seria essa cultura global?

Me lembro de ter ouvido esse termo pela primeira vez na aula de geografia quando estudei o processo de globalização. Da forma que estudei, esse processo pareceu algo bastante natural e pacífico. Algo como se as culturas presentes no mundo tivessem entrado em um consenso e se fundido em apenas uma, e aí vieram os meios de comunicação para aproximar ainda mais essa ideia de unidade cultural, formando uma cultura global.

No entanto, a aula de história me mostrava algo contrário a um processo pacifico e natural. O processo de globalização iniciara com a saída dos europeus para a “descoberta” de novos lugares. Se romantizarmos bastante a história, podemos até entender todo esse movimento como algo para unir os continentes e finalmente o mundo retornar ao estado original de união, não existindo separações. Mas ao analisar a história, percebe-se que não foi assim que aconteceu e acontece.

A saída dos europeus não teve como intuito a união das culturas e sim seu domínio, e para isso o aniquilamento delas.  Por mais que a ideia de uma cultura global e a união das nações seja, ao meu ver, bastante interessante, a agressividade, ego e ganância do seres humanos que dominaram nunca deixou que isso se desenvolvesse de uma maneira natural e pacífica. Os europeus saíram em busca de riqueza, e a encontrou nas culturas.

Assim se deu os relacionamentos culturais, como uma forma de se obter riquezas. Primeiro existiram negociações comerciais, depois foi à base do domínio e aniquilamento. Como os europeus saíram à frente nessa aventura de dominar o mundo, eles foram os que enriqueceram primeiro, depois seus descendentes espalhados pelo globo.

Aqui no continente americano não foi diferente. É sabido que quando a América teve contato com a Europa, a cultura original americana foi sendo submetida ao poder do outro povo. Igualmente se deu o contato entre Europa e África. A Europa enriqueceu a custa do domínio de outros continentes e de outras culturas. E isso resultou na miséria de muitos povos até os dias atuais.

A tal apropriação dos elementos culturais de uma cultura por grupos culturais diferentes resultou no aniquilamento de muitas culturas e no enriquecimento de poucos. A chamada cultura global assim demonstra-se ser um mito, visto que o que existe na realidade é um domínio global por parte de uma cultura.

Se formos considerar toda a história da humanidade, essa parte não faz tanto tempo assim, com isso, até hoje esse processo de apropriação cultural ocorre para o enriquecimento de poucos à custa da cultura alheia.

Quando contesta-se a utilização de elementos culturais por parte de outros grupos, refere-se a organizações que estão fazendo o processo semelhante à história da dominação cultural. O que está sendo contestado e criticada são a estrutura social e as organizações que estabelecem tal estrutura e não um ato individual. O problema não está em um cidadão utilizar elementos de outras culturas, sentir-se pertencente a uma cultura que não condiz com sua criação ou tipo físico. O problema existe quando isso é feito por organizações que irão lucrar em cima disso sem dar qualquer retorno para o grupo cultural explorado.

Se uma marca quer anunciar seu produto utilizando elementos culturais, ela deve por responsabilidade social, respeitar os atributos. Uma propaganda exerce muita influencia e gera informação aos indivíduos, muitas pessoas não tem conhecimento a respeito das culturas. No momento em que uma marca veste uma pessoa branca de uma Deusa africana, por exemplo, para anunciar uma coleção, isso torna-se apropriação cultural. Por que não eleger uma modelo de acordo com a estética da cultura que ela diz querer propagar? Não estaria ela propagando de uma forma muito mais fiel e esclarecedora e ainda retornando parte do lucro a pessoas dessa cultura?

De repente para o grupo que se beneficiou com toda essa história, essa questão pode parecer pequena, uma besteira. Mas para os grupos que estão tentando se reerguer mesmo com toda essa história, essa questão é mais que fundamental, é vital. Afinal foi devido à apropriação cultural que o mundo se encaminhou para essa desigualdade social. E se estamos tentando desfazer toda essa organização desigual, é preciso retribuir o valor correto que se obtém em cima de uma cultura oprimida, só assim começaremos a acabar com toda essa opressão.

Eureca, uma empresa jovem que coloca o jovem no mundo profissional

April 17, 2017 10:02 am

Eureca é a interjeição do famoso matemático grego Arquimedes, que signifca “encontrei!”. A exclamação de resolver um problema muito complicado. E a entrevista do #BlogVV de hoje é com Augusto Junior, da empresa que leva o nome dessa notável expressão. A Eureca nasceu em 2011, no boom que houve no Brasil de startups. Surgiu como um blog que falava desse mundo de inovação dentre os jovens, e teve uma recepção muito boa do público, principalmente sobre a forma que compartilhava conhecimento. Do blog, passaram a levar workshops, principalmente pra faculdades e mais tarde foram localizados pelas empresas para realizarem os processos seletivos. A Eureca, assim como a VV, tem como objetivo envolver os jovens pra fazer a diferença! A entrevista tem dicas pro jovem que está chegando agora no mercado de trabalha e explica como o trabalho social, que leva adiante o BEM pode ajudar na vida pessoal e profissional de cada um.

Augusto, como foi esse caminho de chegar ao âmbito profissional, fazer os processos seletivos de grandes empresas?

Percebemos que o modelo de processo seletivo das empresas era muito ultrapassado, e que a história de um jovem vai muito além de um currículo, de um pedaço de papel. A partir daí criamos uma plataforma nova, baseada na gamificação. Isso fez os jovens aderirem, porque dava a elas toda a questão de pontuação, etapas e tudo mais. A segunda premissa é que rola uma experiência de desenvolvimento. O jovem não se sente sob avaliação, é como se fosse um workshop. O terceiro é o matching de cultura, pra gente ter certeza que o jovem esteja no processo seletivo da empresa certa pra ele.

Com todo esse contato com o universo do jovem atual, o que vocês acham que o jovem busca como propósito?

Os jovens hoje eles tão em busca de coisas que vão além do salário. A gente sabe, temos exemplos de muitos jovens que largam salários altos pra trabalhar em coisas que o gratificam, que tem propósito, significado. Eles não querem fazer coisas por fazer. Querem fazer coisas pra mudar o mundo. E realmente, eles podem, eu acredito nisso. Outra questão é o desafio. O jovem de hoje quer se sentir desafiado, sentir que pode crescer mediante desafios.

Qual a valorização que vocês sentem que é dada por esses jovens pro trabalho social e voluntário? E como atrair os jovens pra fazer esse trabalho?

Hoje o trabalho social, voluntário, humanitário é essencial, é importante pro jovem. Hoje isso é considerado essencial pelo mercado, que o jovem seja envolvido com causas, com trabalhos sociais, importantes. Isso mostra às empresas que são candidatos dedicados, e com certeza aumenta a chance deles nos processos.

O melhor jeito de atrair o jovem é mostrar que ele é fundamental, que ele realmente pode fazer a diferença. E claro, tem que haver a causa. Cada um tem uma conexão com uma causa, seja a ambiental, a humanitária…

 

André Fran no México: Violência contra ativistas dificulta ações sociais

April 10, 2017 7:57 pm

Nosso co-fundador, VP de comunicações, apresentador, escritor e palestrante agora é também um correspondente especial da #VV! O Fran já viajou por dezenas de países e leva o perfil da #VV, de ajudar o próximo e enriquecer a própria experiência de vida como filosofia pessoal. Em sua nova coluna especial exclusiva para a Volunteer Vacations, ele vai visitar, conhecer e apresentar projetos, pessoas, ONGs, iniciativas que façam a diferença no mundo em que vivemos. Tudo a ver com a VV!


O último destino de Fran foi o México. Com a equipe do “Que Mundo É Esse?”, Fran foi ao México ver toda a questão da polêmica do muro de Trump, da violência urbana mexicana, da imigração e como essas mazelas estão afetando a população.o México.

Um dos problemas identificados por Fran foi a escalada da violência urbana e como ela é prejudicial para os importantes trabalhos sociais desenvolvidos nas cidades mexicanas.

Ciudad Juarez, por exemplo, que já foi considerada a cidade mais violenta do mundo, está voltando a ter muitos homicídios, sequestros, roubos e feminicídios. E uma das coisas que me mostrou como é perigoso tocar trabalhos sociais por lá, há uma perseguição não apenas às mulheres jovens e de baixa renda. As próprias ativistas que cobram a polícia e o governo para que tomem atitudes em relação aos feminicídios acabam também sendo assassinadas. Uma situação terrível”, conta o Fran.

O assassinato de mulheres e ativistas de causas sociais no México é muito elevado, e Fran explica que por isso é muito difícil achar uma forma de que o voluntário VV trabalhe e faça a diferença com segurança no país.

“Espero que a situação mude em breve para que a gente possa fazer a diferença por lá também. Até lá, vamos continuar monitorando a situação!”.

Experiência de vida através do VV Thinking

March 31, 2017 1:33 pm

Luise Magalhães Valentim é uma jovem de 25 anos, que mesmo com pouco tempo de vida, já faz muito, todos os dias, para fazer a diferença e mudar a vida das pessoas à sua volta. Luise é Engenheira Ambiental, Consultora Ambiental da Agrosuisse, Coordenadora de Projeto Sócio Ambiental da Agência Somar, Diretora de Projetos da RISO – Resgate da Infância Social, Coordenadora de Sustentabilidade do Projeto RUAS – Ronda Urbana dos Amigos Solidários e Representante do Projeto Cidades Invisíveis no Rio de Janeiro.

Luise particiou do VV Thinking Rio 2016 e, às vésperas do lançamento do VV Thinking Social Aid, o workshop da VV que vai formar empreendedores sociais para criar e gerir projetos sociais,  nos enviou esse texto sobre e importância e influência do curso em sua vida pessoal e profissional.

O VV Thinking Social Aid vai acontecer entre os dias 7 e 10 de junho! Inscrições abertas! 

VV Thinking Workshop Social Aid


por Luise Magalhães Valentim

Depois de concluir uma faculdade de engenharia ambiental, cursar uma pós graduação, passar por inúmeros cursos de especialização, atuar voluntariamente em diversos projetos e ong’s, eu ainda estava em busca de algo extraordinário, que me desse um panorama realista e mais profundo da vida, que me tornaria mais confiante e que me abrisse novas portas para o conhecimento.

Por possuir esse instinto ou estilo de vida de sempre querer e fazer bem ao próximo, transformando vidas, comunidades e quem sabe cidades, me aventurei a ingressar no Curso de Empreendedorismo Social da VV Thinking. Para mim seria a perfeita oportunidade de conhecer inúmeros cases de profissionais e empreendedores incríveis, profissionais renomados no mercado, que me auxiliariam a buscar melhores maneiras de atuar nas diversas ações sociais e de aliar isso a minha rotina pessoal, profissional e empreendedora.

O curso VV Thinking busca fomentar e formar novos líderes sociais, e tenho certeza que a semente foi plantada e semeada perfeitamente em todos os alunos presentes nesse primeiro curso. O curso ajudou a formar não somente empreendedores sociais, mas principalmente propiciou a sermos melhores como seres humanos, como cidadãos, com mais consciência, mais amor, com um melhor autoconhecimento próprio, onde afirmo com toda a convicção de que ter me aventurado e concluído o curso da VV Thinking, foi uma das minhas melhores opções de escolha da minha vida.

Foram três meses com aulas aos sábados onde a sintonia e energia estavam presentes durante todos os dias, o que nos gerou magníficos ensinamentos e experiências únicas, algo fora do comum e de qualquer expectativa que nós alunos poderíamos ter cogitado viver. Foi além de uma capacitação, um curso de ensinamentos e cases, foi grandiosamente importante ao ponto de mudar destinos e caminhos de vida de pessoas que precisavam ter um pouco mais de coragem de ser quem exatamente são e de viver seus belos sonhos.

Percebi que por mais sábios que sejamos, quando atuamos e empreendemos com negócios de impacto social, necessitamos constantemente de ferramentas, materiais de apoio, de possuir uma visão humanitária, de ter foco no seu objetivo e principalmente de nos auto conhecer para assim nos mantermos sempre em constante equilíbrio e crescimento produtivo.

Ter um propósito claro na vida não é só saber onde se quer chegar, é sobretudo, dispor da energia necessária para enfrentar a trajetória, que certamente não será fácil, mas sem dúvida nenhuma, que cada um tem seu próprio jeito de lidar com isso. Acredito também que para sermos bem sucedidos, precisamos passar por grandes transformações e para mim o curso foi fundamental nesse quesito. Através do curso, dos inúmeros mestres e educadores que tive, das inúmeras experiências de vida e das ferramentas apresentadas, me fortifiquei e fui em busca daquilo que almejava. O resultado não poderia ser diferente, no decorrer dos meses seguintes a finalização do curso, fui conquistando pouco a pouco tudo aquilo que me direcionei.

Quando desenvolvemos um negócio social, é como se estivéssemos desenvolvendo uma semente, esta que uma vez desenvolvida, qualquer um pode plantar. Esse é um pouco do sentimento de certeza que a experiência de participar do curso de empreendedorismo social da VV Thinking me trouxe.

 

As Sociedades Tribais

March 24, 2017 3:44 pm

Por Manoela Gonçalves

Lembro quando eu era mais jovem e aprendi sobre as sociedades tribais na escola. Quando me ensinaram, não foi dito esse nome. Essas sociedades foram todas generalizadas na figura do índio. Um homem primitivo, quase que um personagem mitológico, que possuía hábitos não muito comuns, se relacionava com os animais e levava uma vida natural. Lembro que sempre tinha um apito. Não sei porquê, mas nos diziam que os índios apitavam. Tinha o cocar também e o fato deles andarem nus. Acho que sempre foi tudo que eu soube a respeito das sociedades tribais.

Não me recordo de ter escutado de algum professor que elas todas haviam sido extintas, mas eu sempre tive a impressão de que essas sociedades não existiam mais. Como se elas tivessem evoluído e virado o homem moderno. Quando estudei na escola o processo de catequização dos índios, tudo isso pareceu bem normal. Na minha sala a maioria fazia catequese, então catequese devia ser algo que os índios também deviam fazer. Pensava que era para o bem deles, ou que eles estavam com vontade. Não sei o porquê, mas da forma que me foi passado, aquilo nunca me gerou nenhum tipo de revolta, afinal, os índios eram os primitivos, isso era um bem para sua evolução.

Depois que cresci, comecei a ter muito interesse na organização dos povos africanos. Comecei a me questionar como seriam esses povos antes da chegada dos europeus. Pois na escola a única coisa que aprendi sobre o povo africano é que ele havia sido escravizado, como se o preto tivesse começado a existir por volta de 1600, assim como os índios que pareciam só ter existido a partir de 1500. Nessa minha busca cheguei nas sociedades tribais.

A África era toda dividida em sociedades tribais, e isso a gente escuta por alto na escola. O que a gente não aprende a fundo é como se baseavam essas sociedades, como elas se organizavam, quais eram suas leis, o sistema que seguiam e qual papel que cada um desempenhava. Depois que comecei a estudar a respeito das tribos pude perceber que de primitivos ou menos evoluídos eles não tem nada, muito pelo contrário. Assim como as nações, as tribos também possuem seus chefes de Estado, possuem organização própria, leis, funções e tradições. Cada tribo tem sua forma de governo, mas elas geralmente são regidas por leis semelhantes, todos seguem as leis da Natureza e a respeitam como sendo a sua maior preciosidade.

Pode até existir agressividade entre os humanos de tribos diferentes, ou conflitos internos. Mas a agressividade dos tribais não é prejudicial à natureza. A organização da tribo se dá em total sintonia e pertencimento à ela. Eles não se percebem como sendo superiores, e sim uma parte da natureza que precisa se sintonizar com as outras partes. Por isso nas nações tribais dificilmente tem catástrofes, vazamentos, poluição ou algo do tipo.

Cada sociedade possui sua cultura especifica, e é muito difícil aceitar a cultura do outro. Tendemos a pensar que a forma que fomos ensinados e criados é a forma correta e muitas vezes pensamos ser a única. Sem dúvidas na cultura em que vivemos ,os tribais parecem até excêntricos, um povo distante de nós. No entanto o problema não é simplesmente considerar os tribais diferentes. O grande problema está na total falta de respeito com a sua organização.

Eles não são menos evoluídos, optaram em viver uma vida natural. Eles possuem sua forma de governar. A interação com as nações tribais deveria ser semelhante à interação entre qualquer nação. Eles não devem ser educados por outros costumes, não devem ter suas terras invadidas, suas leis desrespeitadas, seu rios tomados e nem devem querer se submeter ao um sistema diferente ao que eles acreditam. Nenhuma organização é superior à outra, eles tem a organização deles e merecem respeito.

É muito importante também nos darmos conta de que as sociedades tribais não foram extintas, como às vezes tive a impressão. O tribal, o indígena, ele não é uma mitologia. Ele é apenas mais um tipo de organização que temos no mundo. É sim a forma mais antiga que o ser humano tem de se organizar, mas essa forma ainda existe e está presente em diversos locais.

Às vezes não nos damos conta de que a mesma história que ouvimos na escola ainda se reproduz em nossa sociedade atual. Aqui no Brasil os tribais indígenas perdem cada vez mais as suas terras e passam pela pressão de ou ter que se submeter ao sistema do invasor ou de ser extinto. Os tribais não conseguem entender o porquê de pagar imposto sobre uma terra em que eles sempre serviram. A moeda de troca dos tribais é diferente da nossa, como que ele podem pagar impostos sobre terra?

Por mais que eu tenha bastante simpatia pelas organizações tribais, penso que deva ser muito difícil viver em uma, já que fui criada de forma tão diferente. Seria realmente um desafio, algo bastante difícil, muitas pessoas diriam que é impossível. Então porquê os tribais tem que viver da forma que eles não acreditam e da maneira que não foram criados?

Pra eles é um terror viver da forma que vivemos distante da tribo e do senso de comunidade e coletividade. Eles vivem na chamada sociedade da abundancia, como trocar isso pela sociedade da escassez? Aqui no Brasil muitos indígenas preferem o suicido a vida fora de sua tribo. Nesse sistema global, o tribal é o mais desprotegido, sendo assim o indígena aqui se encontra numa condição muito vulnerável. Os governos precisam compreender e aceitar as organizações tribais e percebê-las como nações, para que assim as tribos possam desempenhar o seu papel em sua própria comunidade e na esfera global.