Aos meus amigos brancos

November 24, 2017 3:17 pm

por Manoela Gonçalves

Aos meus amigos brancos

Vocês dificilmente serão capazes de me compreender, como nunca o fizeram

Aos meus amigos brancos

Eu sei que à medida que eu vou aflorando a minha ancestralidade afrikana vocês vão se identificando menos comigo, e eu com vocês.

Aos meus amigos brancos

Vocês nunca entenderam, nem vão entendem o que é ser preta

Vocês nunca quiseram mesmo entender…

Aos meus amigos brancos

Vocês não imaginam como é desafiador desde criança ser a única preta da turma

E vocês não lembram como desde crianças foram racistas

Aos meus amigos brancos

Vocês não conseguem perceber que a minha cultura é diferente da sua

Aos meus amigos brancos

Vocês nunca compreenderão minha relação com a Natureza

Aos meus amigos brancos, até mesmo esses que tentam se desconstruir

Vocês não imaginam como é ser preta e ter que conviver com vocês, brancos

Aos meus amigos brancos

Vocês não percebem como é chato ouvir vocês sempre exaltando a cultura , literatura, líderes, política, religião, ensino/educação branca de vocês

Aos meus amigos brancos, mesmos os desconstruídos

Vocês não conhecem escritores pretos, e se conhecem não leram

Aos meus amigos brancos

Vocês não entendem que eu não me identifico com esse sistema, não porque sou de esquerda, sou “comunista” ou “socialista” e nem porque sou “hippie” e sim porque sou afrikana

Aos meus amigos brancos,

A minha cultura é diferente da sua

Aos meus amigos brancos,

Ser branco e preto não é só característica física, é cultural. E é por isso que não somos iguais, nem tratados como iguais. Porque minha cultura é diferente da sua. E a sua, meus amigos brancos, desrespeita a minha.

Por que não “dia da consciência humana”?

November 20, 2017 3:19 pm

A morte de um ciclista na lagoa rende homenagem até hoje.
A morte de um skatista, filho da atriz(Cissa Guimarães) dá nome de túnel, assim como a morte
do filho da modista (Zuzu Angel).
O atentado a um país europeu faz a internet quase inteira pedir paz, coisa que o continente
africano desconhece desde que os europeus chegaram por lá.
Um tiro a um jornalista choca mais do que 111 tiros a jovens estudantes.
Pelas ruas não faltam homenagens, assim como nos livros de histórias. Sempre aprendemos
sobre os feitos humanos.
As igrejas não cansa de tornar algum em santo. Desde crianças, pretos e brancos aprendem
sobre a “glória”, “bondade” e “sabedoria” do humano de cor branca. Está mais que evidente
que não falta consciência humana, o que está faltando é tomarmos consciência de que a África
é o berço da humanidade e muita sabedoria foi tirada sem reconhecimento de lá.
A consciência de que famílias africanas são constantemente destruídas devido a uma
exploração na qual todos desfrutam ou já desfrutaram.
A consciência de que seu linguajar racista é muito constrangedor para um preto.
A consciência de que os negros construíram tudo sob o sol quente e o chicote estalado, sem
sequer receber algum reconhecimento por todo trabalho. A consciência de que ate hoje os
negros compõem a maioria dos trabalhadores braçais que permitem que você branco desfrute
do feriado de consciência negra, ainda reclamando do nome.
Está nos faltando a consciência de artistas negros.
Está nos faltando a consciência de escritores pretos dentro das escolas e universidades. Está
nos faltando a consciência da filosofia africana sobre a organização social. A consciência das
manifestações religiosas afro, a consciência de humanos de cor preta.
Para isso nos foi dado um dia, resumido em um escravizado indomável. E você ainda acha que
esse dia deveria ser compartilhado com os que já dominam os livros, vocabulários, religião,
política, estruturação social, tudo..
Ah branco, dá um tempo, vai…pelo menos nesse dia 20!

Entrevista com Karina Oliani, médica, aventureira, viajante e voluntária!

November 10, 2017 3:05 pm

A Volunteer Vacations tem a honra de contar com parceiros incríveis e ilustres, que além de serem incríveis no que fazem, são pessoas de coração aberto, prontas pra sempre irem atrás dos lugares que precisam de voluntários, pra chegar lá e fazer a diferença. Uma dessas enormes parcerias que temos é com a nossa queridíssima KARINA OLIANI! Ela é desses espíritos inquietos que procuram fazer do mundo um lugar melhor no dia a dia! E pra isso, Karina é hoje médica, apresentadora, palestrante, viajante, alpinista, produtora e voluntária! Se não tiver mais coisa… Karina já esteve com a VV no Sertão do Piauí mais de uma vez pra realizar a Expedição Médica VV Dharma por lá e já atendeu milhares de pessoas, tratou, deu carinho, deu óculos, ouviu, aconselhou, fez de tudo. Fez a diferença.

No meio dessa rotina de tantas coisas, Karina tirou um tempinho pra conversar com a gente e contar um pouco dela, de voluntariado e também buscou inspirar mais gente a percorrer um caminho parecido, sempre buscando o bem. Veja abaixo como rolou esse papo incrível com essa maravilhosa!

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Oi, Karina, tudo bem? Você é médica, a primeira especialista do Brasil em resgate em medicina de áreas remotas, é produtora, apresentadora, palestrante, atleta, viajante… Acho que dá pra dizer que há aí uma espécie de inquietude né? Dá pra gente começar falando sobre como isso tudo começou, de onde saiu a vontade de fazer tanta coisa?

Meus pais contam que desde pequena eu já tinha essa personalidade “superativa”. Enquanto minhas irmãs brincavam dentro da casinha, eu estava escalando o telhado da casinha das bonecas!!! Sempre tive energia de sobra. É uma coisa que vem de dentro e que acredito que já nasceu comigo. Amo me sentir desafiada e motivada a sair com frequência da minha zona de conforto.

No meio disso tudo você ainda arranja tempo pra, entre uma aventura extrema e outra, ajudar as pessoas, como o trabalho que você faz com a VV, por exemplo. Qual a importância disso na sua vida, de onde surgiu a vontade de ajudar e como isso faz parte do teu dia a dia atualmente?

Desde antes de ter me formado em Medicina em 2007, pelo menos uma vez por ano viajo para algum canto do mundo onde eu possa doar meu trabalho médico para pessoas que realmente precisam. Isso é algo que me traz uma alegria real, uma satisfação verdadeira. Poder contribuir e ser útil faz isso com as pessoas. Atualmente dedico uns 4 meses do ano para ajudar as pessoas e isso só tende a aumentar…

Em 2014 conheci a Mariana Serra, fundadora da VV, em um almoço em São Paulo. Falamos de projetos sociais e a Mariana deu a ideia de fazer a 1ª Semana Médica VV comigo na coordenação médica. Era um desafio enorme, por isso aceitei na hora! Optamos por viajar para algum local inóspito, de difícil acesso e que não tivesse acesso à medicina.

Depois, em 2015, eu e o diretor de arte Andrei Polessi, idealizamos o Projeto Dharma que surgiu através de um site de financiamento coletivo onde levantamos fundos para publicar um livro de fotos da Índia e Nepal. O projeto arrecadou mais de US$15 mil para construção de uma escola que beneficiaria as crianças vítimas do terremoto no Vale de Pattle no Nepal.

Em 2016 escolhemos o sertão do Piauí por se tratar de uma das regiões mais carentes do nosso país. Um dos lugares de maior seca e escassez que já vi, mas em compensação com pessoas muito hopitaleiras, fortes e resilientes.

Hoje sou vice-presidente do Instituto Dharma, que realiza projetos em prol dos povos que mais precisam de ajuda e não me vejo fazendo outra coisa, se não doando um pouco do meu tempo para ajudá-los.
Sertão e as Expedições Médicas VV-Dharma. O que você sente e o que dá pra pensar sobre essas expedições importantes, onde vamos a lugares extremos dentro do nosso próprio país, vendo uma realidade tão difícil e mesmo assim vendo um povo tão bom e um grupo de pessoas tão incrível disposto a tudo pelo bem do próximo? O que o Sertão te faz sentir?

O Sertão mostrou que ajudar os outros faz mais bem para a gente do que para quem está sendo ajudado. É a lei do retorno. Se todo mundo tratasse os outros como gostaria de ser tratado e fizesse, mesmo que fosse uma pequena parte, esse mundo seria muito, muito melhor!

E coordenar esse time incrivel de pessoas , dispostas a sair da sua zona de conforto para ajudar o próximo, só me faz acreditar ainda mais na humanidade e recuperar a esperanca.

Que lindo, Karina! Você tem algum recado final pra chamar a galera pra tirar mais férias voluntárias?

Trabalho voluntário é devolver um pouquinho de tudo de bom que recebemos do mundo. Nao fique esperando o governo, a iniciativa publica, faca a sua parte e tenha certeza que vai melhorar. Imagine so se cada um fizesse um pouquinho?

Posso listar aqui inúmeras vantagens sobre dedicar seu tempo ao próximo, mas só quem um dia já fez esse tipo de trabalho, consegue compreender o que eu estou falando e sentir essa sensação de plenitude que transborda quando faz algo assim!

Há riqueza na pobreza

November 7, 2017 6:05 pm

por Manoela Gonçalves Ramos

Uma das coisas que chama atenção em todos dos lugares paradisíacos do Nordeste brasileiro é a falta de estrutura da população local. As casas são super simples. A vida é simples, não tem luxo. Tem umas casinhas assim no barro mesmo, coisa de gente que não tem muita grana. E não é exagero não, todo o litoral nordestino é assim: tem uma rua principal com bares, lojas e restaurante, em que geralmente a maioria dos proprietários são gringos; têm uma pequena parte de casarões, condomínios e pousadas que atendem mais aos turistas do que aos locais. E aí depois da rua principal, são ruas que nem calçadas são, com casinhas todas bem grudadinhas e bem humildes.

Tive o privilégio de frequentar a casa de alguns nativos que fiz amizade. Algumas casas não tinham cama, somente redes. Tinham casas que me lembravam “ocas de concreto”. Fui em uma, do seu Puluzinho, que não tinha energia elétrica. A noite era linda lá. A comida, eles tiravam da terra, não tinham congelador.  Tudo era retirado e feito na hora.

Lembro também da casa do Zé que simplesmente não tinha banheiro. Eu pedi para ir ao banheiro, e quando cheguei lá era só um buraco no chão. O Zé faz dinheiro trabalhando como guia e já trabalhou em pousadas da região. Conversando, ele me contou como já ganhou e gastou dinheiro. Sua casa foi das mais simples que entrei na vida, na hora fiquei pensando: “po, já que ganhou dinheiro, porque colocou um vaso sanitário e comprou uma cama?” Depois percebi que no fundo eu estava julgando a vida do Zé baseada no meu padrão de consumo e felicidade.

Pensei em tudo de material que eu julgava extremamente necessário para viver. Não encontrei nada lá. A maioria não tem celular com internet, muitos lugares em que nem sinal pega. Computador então, raríssimo. Como eu disse, algumas casa nem cama, só rede, e mesa também era raro encontrar. Guarda roupas quando se tem, é bem simples, e ninguém tem tantas roupas assim pra se guardar. A vida da maioria dos nordestinos é com o básico mesmo, com o que a natureza tem para oferecer. A galera do litoral dificilmente passa fome pois a natureza é bem generosa. Lá chove e a comida é tirada da terra em abundância. É realmente difícil passar fome, apesar da simplicidade, em qualquer casa que você para e pede uma sobra de comida, eles te recebem com banquete.

Me lembro muito da Dona Elisângela e o Bob, um casal cearense que me acolheu muito bem. Apesar da simplicidade, da pobreza material, existia uma inteligência indescritível no Bob. Ele conversava sobre política como um especialista, e lá não tinha internet. Ele assistia ao noticiário e tirava suas próprias conclusões, não estava falando apenas o que leu, e sim o que refletiu. Apesar de poucos estudos, era uma pessoa super inteligente.  Samuel, seu filho de 7 anos questionava o porquê do pai não ir procurar um emprego, o casal era autônomo, tinha uma pensão e ganhava bem pouco. Me contaram que alguns meses ficava “apertado” e só tiravam o da comida, não tinham luxo algum. O filho já querendo um pouco mais de luxo questionava porque dele não procurar um emprego. Bob dizia que não existia emprego no mundo que pagasse sua paz, tranquilidade e liberdade. Estava satisfeito, não tinha ambição.

Percebi que julguei a casa de muitas pessoas. Em muitas que fui, de primeiro momento ficava compadecida, sem graça em aceitar qualquer favor ou ajuda de uma gente tão pobre materialmente. Pensava que o que me ofereciam lhes faria falta. Percebi que a vida toda julguei a pobreza material, como se o simples fato do não ter algo fosse sinônimo de desgraça, ou até de tristeza. Lembrei que sempre quis mudar o mundo e ajudar aos necessitados; pensei se não continha uma certa arrogância em julgar a forma com que percebo a vida, como se a minha forma fosse a boa. Já cheguei a pensar que a pior coisa a ser enfrentada em nossa sociedade seria a pobreza material.

Na verdade, somos induzidos a pensar assim. Nossa sociedade se configurou de uma maneira em que o dinheiro representa o paraíso enquanto a pobreza material representa o inferno. A classe média tende a perceber o pobre como um desgraçado, um coitado, uma vítima que precisa de ajuda.  Por vezes eu pensei que precisava fazer algo e ajudar aos pobres, como se eu tivesse em uma posição melhor que a deles pelo simples fato de possuir mais dinheiro. Existe um mito em nossa sociedade de que para ser feliz são necessárias conquistas materiais. Na verdade, nós somos estimulados a essa lógica, pois é ela que nos leva a competição.

Todas as pessoas com quem convivi tinham suas filosofias, estavam satisfeitos e gratos a Deus. E não é alienação da religião, é a compreensão de vida que essas pessoas têm. É sabedoria, é o conseguir ser feliz independente da situação. De repente por isso sejam chamados de humildes, não pela sua falta de dinheiro, mas pela grandeza de seus corações. Foi impressionante como conviver com a pobreza material, assim de uma forma amigável, e não na figura de uma pessoa ajudando, e muitas vezes até sendo ajudada por eles, me trouxe felicidade e paz. Não quero romantizar a pobreza, principalmente porque sei que a vida dos pobres do litoral é muito diferente das dos que estão nas cidades, que vivem longe da natureza, levam a vida de consumo, carreira e competição. Mas, todo esse convívio me provocou muitas reflexões a respeito do que realmente é pobreza. Se não existissem comparações, muito provavelmente essas pessoas nem se sentiriam pobres, afinal, elas tem um olhar riquíssimo a respeito da vida e das relações humanas. Vi que muitas vezes eu é que enxergava problemas que pra eles eram naturalidades da vida. A compreensão e visão de mundo deles vai muito além, muitas vezes quem está tentando ajudar um desafortunado enxerga problemas que pra eles não são problemas de verdade. Muitas vezes queremos mudar a vida de terceiros baseado no que julgamos ser bom, porque é bom pra nós.

É claro que a desigualdade social é algo gritante e muito agressivo, mas no fundo nós que tentamos colaborar um pouco com a igualdade social, queremos igualdade a partir dos nossos princípios e visões. Até o nosso jeito de combater a pobreza é dominador. Queremos oferecer acessos, estudos em instituições que servem ao mercado e ao sistema, queremos incluí-los no nosso estilo de vida, e assim nos sentimos fazendo o bem, já que julgo a minha vida como sendo boa. Nesse mesmo mundo existem diversas visões e estilos de vida, não dá para querer unificar todas as visões porque vira dominação. Se nós acreditamos que o bem estar está no consumo e no poder de compra não podemos julgar os que encontram-o na simplicidade. Utilizamos números de televisão para definir classes sociais. Utilizamos poder de compra para julgar o padrão de vida. Esquecemos que os desafortunados, muitas vezes, são os mais ricos, possuem a maior riqueza que é a felicidade. São pessoas felizes. Me lembro disso, apesar de todas as dificuldades, que pra eles eram naturais, apesar de todas as naturalidades de suas vidas que eu julguei como dificuldades, todos tinham sorrisos nos rostos. Alguns sorrisos banguelas, mas todos estavam felizes com suas vidas, as levavam como queriam e estavam mais próximos da liberdade.

 

 

“Fake News” e a mídia contemporânea

October 6, 2017 2:47 pm

por Manoela Gonçalves

Fui assistir ao documentário “Fake News: Baseado em Fatos Reais“, que mostra como as “notícias falsas” influenciaram a eleição norte-americana, em que Donald Trump conseguiu se eleger. No documentário tem uma entrevista com um dos criadores do site de notícias falsas. Eles inventavam as noticias mais absurdas e divulgavam nas redes sociais, sendo a principal o Facebook. O jovem de 19 anos entrevistado conta que a ideia surgiu para ganhar dinheiro. Os meninos lucravam por clique, e começaram a criar notícias mais favoráveis a Trump, pois seus eleitores aceitavam e “clicavam” mais do que os da Hillary. Então, eles inventavam noticias e jogavam em grupos com eleitores do agora presidente.

“Notícias” como “Hillary é pedófila”e “O papa apoia Trump” foram das mais acessadas e, consequentemente, das mais lucrativas. Em um dado momento, o menino é questionado a respeito da sua responsabilidade e influência nas eleições presidenciais dos EUA. No primeiro momento parece mais que óbvio que o jovem tem muita influência na eleição de Trump, e isso é até assustador, como um pequeno grupo pode influenciar assim todo um país. Depois comecei a pensar e cheguei a conclusão de que não, que apesar de ter sido uma ótima estratégia para ganhar dinheiro, o jovem não teve tanta influencia assim.

A gente tende sempre a pensar que os meios influenciam as pessoas, mas esquecemos de que as pessoas, a opinião pública, influenciam os meios. A mídia é uma espécie de espelho social, ela reflete o que a sociedade pensa. O menino da entrevista disse que alimentava mais os eleitores do Trump porque eles não questionavam a veracidade das notícias tanto quanto os eleitores de Hillary. Na realidade os eleitores queriam mais motivos para adorarem ao Trump. As notícias falsas não criaram eleitores, os eleitores é que refletiram a criação das notícias falsas direcionadas a eles.

Dificilmente alguém mudou de lado, tanto que é dito que os eleitores de Hillary questionavam, não aceitavam aquilo que estava escrito. A mídia transmite à sociedade o que a sociedade quer ver.

Glória Pérez já fez um monte de novelas, mas só agora aborda a transgenia. Me lembro de uma novela chamada “As filhas da mãe”, em que tinha um personagem transgênero, que saiu do ar por falta de audiência, e agora a novela das 8 nos dá motivos para ser assistida.  Meu pai quando vê continua falando que é baixaria falar de transgenia, nem assiste. Já as pessoas que debatem esse tema encontraram motivos para acompanhar a trama.

Será que são mesmo os programas que influenciam uma mente a disparar contra uma multidão ou esse tipo de mente que reflete na criação de programas violentos? Se analisarmos o conteúdo exibido nos meios midiáticos, percebemos que são tudo frutos da imaginação e perversão humana. As grandes audiências ainda são para programas de guerra e de perversão sexual. Muitos indivíduos acusam as mídias de embutirem tais pensamentos na cabeça da sociedade, mas na verdade o conteúdo é fruto de cabeças e consumido por outras cabeças. A guerra ainda está no desejo humano, se não, os filmes, seriados e programas de guerra não seriam os com maior audiência.

Ninguém é estimulado à subversão pelo rap, mas muitos subversivos é que se identificam com o gênero musical. O funk reflete a realidade hiper sexualizada de muitos. Não podemos dizer que influenciou, por exemplo, aquele homem que ejaculou mais de uma vez em passageiras dos transportes públicos. Pessoas que já vivem a situação de sexualizar tudo ao redor é que estimularam a criação de letras como “sarrando mentalmente em você”. Afinal, o que o homem fez não foi praticamente o que canta a letra de funk? O mesmo acontece com as letras que falam das “novinhas”. Essas letras podem até influenciar a sexualização infantil, mas foi a sexualização infantil, principalmente dentro das periferias, que refletiu no conteúdos das letras de funk.

As notícias falsas alimentaram os eleitores do Trump, mas ela não os criou. Eles já existiam, e só precisavam de mais motivos e por isso as notícias tiveram tanta força. Às vezes parece muito assustador imaginar que existem pessoas com verdades tão diferentes da nossa, com isso é mais fácil responsabilizar os meios midiáticos, como se as pessoas que pensassem diferente de nós fossem tolas influenciadas. Mas a mídia está apenas refletindo o pensamento do grupo que quer atingir. Os meninos das notícias falsas queriam atingir os eleitores do Trump pois aqueles eram mais rentáveis e queriam ler que o Papa apoiava seu candidato. Os homofóbicos fascistas brasileiros saíram do armário com o Bolsonaro, mas Jair não os criou, eles já existiam e foram essas pessoas que na realidade criaram o “Bolso(vo)mito”

Sem dúvidas a mídia serve de combustível e fortalece ao grupo que dela faz uso, mas a mídia é um espelho, ela reflete a opinião pública por mais absurda e inacreditável que possa parecer essa opinião.

Todo branco é racista. E todo preto também.

September 18, 2017 12:08 pm

por Manoela Gonçalves

Não tem jeito, por mais vergonhosa e constrangedora que seja essa realidade, todo branco é racista. Assim ele foi ensinado não só pelos pais, mas pela mídia, escola, amigos e livros. Todo branco é racista e todo preto também.

Eu só posso falar sobre a minha realidade, e pelo que vejo, eu, meus pais e familiares somos racistas. Já fomos mais, mas ainda somos.

“Ah, mas o preto não pode ser considerado racista, pois racismo é algo estrutural e racista é quem se beneficia dessa estrutura.”

Eu só posso falar sobre a minha realidade, e pelo que vejo, já me beneficiei bastante dessa estrutura capitalista. Eu nunca tive como negar, mas já vi e vejo alguns parentes meus que se consideram branco e sentem-se melhores com isso. Vejo um processo de embranquecimento por parte da maioria dos meus familiares, nos gostos, estilo de vida, destinos de viagem, em quase tudo.  Já vi e vejo parentes se apelidarem com termos racistas, eu mesma fui aprender esses termos dentro da minha própria casa. Já ouvi alguns que só lá, como se fosse um ensinamento para não nos associarmos ao lado negro, no sentido literal da palavra.

Minha mãe me disse que minha vó a aconselhava casar com um homem branco, para as filhas não terem trabalho nem sofrimento com o cabelo. Quando criança, lembro mais de uma vez meu avô dizendo, como seu pai dizia que um problema de um preto era outro.

Nós pretos fomos ensinados a odiar ao outro preto, e racismo é isso, no fundo é isso. Por mais que se tenha o discurso estrutural, já que o reflexo desse ódio resultou na desigualdade sociorracial, racismo é ódio a uma raça. E assim como os brancos, nós também somos ensinados a odiar o preto, a diferença é que isso torna-se auto-ódio. Você começa a não ter gostado de ter nascido preto e a querer que seus filhos não experienciem a mesma sensação. Então a forma que der para se proteger e proteger os seus, você faz através dessa estrutura e lógica que associamos ao sistema do branco em que quem tem mais e demonstra, se beneficia. E minha família sempre legitimou essa lógica.

Assim como todos, meus pais também reproduziram bastante o racismo que os foi ensinado. O racismo é passado de pai pra filho, e assim como nós pretos somos ensinados pelos nossos próprios pais, os brancos também aprendem com os seus. Não dá para encontrar o culpado pelo racismo se todos somos.

Não quero eu deslegitimar discursos e movimentos, muito pelo contrário, sou super a favor e grata a eles. Percebo e sinto sua importância principalmente porque foram os movimentos que me ajudaram a perceber esse auto-ódio a que eu fui ensinada, e a partir disso começar a me desconstruir para eliminar o meu lado racista, de enxergar o preto como inferior ao branco, seja no vocabulário racista, nas referências de estudo, nas filosofias adotadas, nas marcas consumidas, nos programas e filmes assistidos, em tudo, até nos sonhos tinha o racismo presente.

Todo preto, assim como branco, foi ensinado ao racismo. A diferença é que de repente como nós nos prejudicamos com as crenças racistas, chega um momento em que não a aceitamos mais. Não seria nem lógico. Com isso, a busca por igualdade racial parece um movimento de uma só cor. Os brancos não refletem muito sobre o racismo, pois isso não te causa sofrimento, e geralmente a reflexão vem com o sofrimento. E é por isso que nós pretos insistimos em afirmar que todo branco é racista. Para que vocês brancos, se incomodem, se possível sofram com o nosso discurso, reflitam, se desconstruam e consigam ao menos criar seus filhos sem a lógica racista. Então toda vez que ouvir a afirmação de que todo branco é racista, entenda como um convite a reflexão a respeito da desigualdade racial e uma intimação a desconstrução para revertermos essa lamentável realidade.

O jeitinho brasileiro

September 1, 2017 11:30 am

por Manoela Gonçalves Ramos

Eu nunca aceitei muito bem o discurso de que o Brasil não presta. De que todos somos corruptos e que nosso governo reflete o comportamento da maioria. Eu nunca percebi o Brasil como um lugar hostil, perigoso e violento como é retratado nos telejornais, e sequer aceito o discurso de que o jeitinho brasileiro seja uma malandragem corrupta.

Chegou um dia em que eu decidi conhecer melhor o meu país. Não só as paisagens e belezas naturais, mas o povo brasileiro e o tal jeitinho que dizem que temos. Descolei umas miçangas pra vender na praia, coloquei na mochila o que pensava ser necessário e lá fui eu conhecer melhor o lugar em que nasci.

As miçangas, apesar de me renderem algum dinheiro, são pretexto para conhecer de verdade os nativos de cada lugar. O valor que ganho nem se compara à quão valiosa é a sensação de pertencimento por cada local em que passo. O legal de viajar vendendo na praia é o olhar que as pessoas têm de mim, não sou tida como turista e sim como nativa, afinal, quando eu estou ali, estou trabalhando. Assim estou podendo conhecer de verdade o povo brasileiro.

E que povo receptivo esse tal de brasileiro!

A dona Maria quando me conheceu, quando viu uma menina viajando sozinha e vendendo, me deu um abraço forte e disse de uma forma muito sincera que torcia muito por mim. Uma outra Maria, que vive vendendo miçangas há anos, agora coroa e continua debaixo do sol trabalhando, fez um manual de dicas, disse que eu deveria ter variedade e me deu alguns trabalhos dela para preencher meu painel. Eu até fiquei sem graça em aceitar, mas não quis fazer desfeita. A Neice, mais conhecida como baiana, disse que se eu precisasse de algo, era só chamar. A Ju, uma “hippie” que viaja com o marido e filho vendendo, me ensinou quais os melhores horários e dias para vender na praia.

Na areia, debaixo do sol, não parece existir concorrência. Todos se respeitam e colaboram um com o outro. Em geral, o brasileiro é um povo que compartilha muito. Eu nunca pedi mas muito me oferecem ajuda. Às vezes, passa alguém vendendo comida e me dá algo. Os preços pra mim são mais em conta e de vez em quando até rolam uns passeios de graça, naqueles dias sem movimento. As pessoas me acolhem e me ajudam. O brasileiro tem esse jeitinho.

A cada lugar que passo percebo que o jeitinho brasileiro é o jeito de uma gente zelosa, acolhedora e extremamente amorosa. O Brasil não é isso que mostram nos telejornais e o mundo tem mais pessoas boas que más.

Eu digo isso porque é o que vejo a cada dia que passa e conheço melhor esse povo brasileiro.

Ainda somos escravos

August 18, 2017 1:39 pm

por Manoela Ramos

Muitas vezes eu me me pego remoendo histórias passadas, estudando o período de escravidão dos africanos e me coloco num papel de sofrida pelo sofrimento dos meus antepassados.

Muitas vezes pensei que não poderia haver crueldade maior do que a que os africanos vivenciaram. Por vezes pensei que nada havia mudado e que todos os pretos, inclusive eu, de alguma forma sofriam com os tempos de escravidão dos antepassados.

Hoje eu vejo que realmente nada mudou. A escravidão ainda existe, a chamada escravidão moderna. E ela não está resumida a uma rotina exaustiva e salário baixo. Ela é punitiva, perversa. Existem agressões para manter os escravizados em condições desumanas, serviços braçais exaustivos, debaixo de sol quente, condições inseguras de trabalho, estupro, tudo.

Nada mudou. A diferença é que eu não nasci escrava como minha tataravó. Eu não nasci escrava, não mesmo. Posso ser massa de manobra, mas escrava não. Então por que fico remoendo a escravidão que não sofri ao invés de tentar revirar e conhecer a escravidão que está acontecendo agora?

Atualmente, quase 46 milhões de pessoas vivem em regime de escravidão no mundo. Os senhores escravagistas ainda existem, as fazendas e plantações de escravos também. E como eu posso efetivamente contribuir para isso acabar?

O que estou fazendo para o fim da escravidão?  Eu, justo eu, que vivo lamentando por meus antepassados feitos de escravos…

Sinceramente, ainda não sei como agir a respeito disso. Sei que posso ao menos tentar não colaborar e enriquecer os escravistas. E que, por agora, posso deixar de me apegar tanto ao passado e me concentrar em conhecer o presente, para ver se assim consigo contribuir para um futuro melhor. Hoje sei que nada adianta lamentar por algo que não sofri se ainda existem pessoas sofrendo. De nada adianta sofrer pelo passado se a realidade do presente é a mesma. É mais lógico que eu sofra pelo presente.

E que eu perceba que no presente eu contribuo para o sistema escravagista através do meu consumo. É o único poder que a massa possui, além do amor, o poder de compra. E o que estou fazendo com ele?

Estou empoderando aqueles mesmos senhores escravagistas que aprisionaram meus antepassados. Estou os enriquecendo comprando produtos baratos produzidos pelo suor de uma pessoa escravizada.

Será que me importo tanto assim com a escravidão? Então por que é que não consigo romper com sua lógica em detrimento dos meus desejos?

Será que focar tanto na escravidão apenas do meu povo não é uma forma de me eximir de culpa? Oras, sou descendente de pessoas que foram escravizadas, essa lógica escravagista não é minha. Mas se não é minha por que eu ainda a legitimo com o meu consumo?

O pior é que eu sei a resposta:

Porque não quero abrir mão do meu conforto.

#VVMeeting – O Encontro do Time VV

August 14, 2017 11:57 am

Na última semana aconteceu o #VVMeeting! Pudemos reunir uma boa parte daqueles que fazem o dia-a-dia da VV, desde as fundadoras às representantes comerciais! O encontro foi realizado na última quarta-feira, em Nogueira, Petrópolis. Embora seja global, com voluntários e parceiros de todos os cantos do mundo, a VV nasceu e tem sua sede no Rio de Janeiro, por isso a região serrana foi escolhida como sede do evento. A anfitriã da vez foi a nossa querida fundadora Mariana Serra.

O encontro foi importante. Além de celebrar os três anos da Volunteer Vacations, que se consolida a cada dia mais no mercado como a principal agência de turismo voluntário do país, foram discutidos novos produtos e estratégias, além também de atividades pra descontração e união do grupo.

“Quase não nos vemos, eles ficam no Rio e eu em São Paulo, mas me sinto conectada com cada um. Obrigada @volunteervac por essa confraternização delícia! Que time incrível ♥️” Marina Caetano, da VV em São Paulo, no instagram.

O #VVMeeting na Serra foi mais uma das ações da VV que buscam fazer a diferença. Nosso lema é aplicado em nosso dia-a-dia. Estamos e sempre estaremos trabalhando todos juntos, valorizando a força do coletivo, buscando nos aperfeiçoar para oferecer aos nossos clientes, vocês, os voluntários e voluntárias que tanto ajudam as pessoas, cada vez mais ferramentas para transformar o mundo em um lugar melhor.

Essa é a VV.

E a novidade: teremos mais #VVMeeting, dessa vez com voluntários… Fiquem ligados.

Por que o cabelo de uma criança preta incomoda tanto?

August 11, 2017 2:20 pm

A infância de uma criança preta é assustadora. Toda a novela que existe por trás do cabelo, essa responsabilidade de desde muito nova ter de domar o lado África para que as pessoas não se incomodem.

Mas, por que o cabelo de uma criança preta incomoda tanto?

Quanto mais a genética africana aflorar na pessoa, mais ela tem de podar esse lado. Quanto mais crespo o cabelo dela, mais sofrerá essa criança. A primeira vez que passaram química no meu cabelo foi aos seis anos. Eu nem sabia o que iam fazer, não tinha discernimento para escolher o que era melhor para meu cabelo, e pelo que todos me falavam isso seria bom pra mim. E fizeram.

Depois, vira uma escravidão, e se você não gosta do teu cabelo a culpa é tua, que não cuida, que tem que hidratar, que tem que passar outra química pois aquela já não é tão boa. Tem que fazer hidratação mil vezes por semana, tem de passar mil litros de creme. Mas nem isso é suficiente. Porque você só é um preto tentando domar seu lado áfrica e os brancos ainda tiram onda do tipo: “ah porque você não deixa seu cabelo natural?”

Mas quando aparece uma criança com o cabelo natural do lado, vem o medo. Acha que tem piolho, que a mãe não cuida, tira sarro.

Gente, mas por que o cabelo de uma criança preta incomoda tanto?

Nem dá pra dizer que minha mãe tem alguma culpa nisso, apesar de responsabilidade, afinal, ela era a minha responsável. Desde muito nova ela me falava o quão lindo era o povo africano. Lá em casa tínhamos vários livros que retratam a beleza do povo preto, sempre tivemos bonecas pretas, contos africanos, e ela sempre me achou maravilhosa e sempre me disse isso.

Mas minha mãe não nasceu tão preta como eu, não tem cabelos tão crespos como o meu. E quanto mais preto, mais racismo. Minha mãe não sofreu o racismo que eu sofri. Apesar dela saber que existe, de sempre ter me ensinado me mostrando que o problema estava nos racistas e não em mim, ela não sabia me defender, porque ela nunca precisou se defender.

Quando a tia Rita ligou dizendo que meu cabelo não estava com balanço, que deveria fazer algo, ela achou que fosse pro bem. Quando lhe foi sugerido por todos que meus cabelos fossem domados, ela não imaginava que estava me escravizando – até porque minha mãe ama salão de beleza – ela não queria que eu sofresse. Como a mãe de um filho gay que tenta esconder para que o filho não sofra. Ela não queria que me confundissem com um pivetinho, ou que me denominassem assim, ou que me colocassem apelidinhos na escola. Ela fez tudo que fez pensando que fosse me ajudar – e, sinceramente, de repente até ajudou mesmo, porque me livrei de muito ódio durante a infância que agora sinto que meu cabelo desperta nos outros.

Não tentem jamais culpar a minha mãe, não tentem jamais culpar o preto pelo racismo que o branco criou. Minha mãe passou química no meu cabelo quando criança pois o cabelo de uma criança preta incomoda muito.

Mas por que o cabelo de uma criança preta incomoda tanto?

De repente a resposta esteja no fato da marginalização de tantas crianças pretas.

É comum pelas ruas crianças pretas sem rumo , fruto de uma relação não planejada e nascendo quase que sem família, filhos da rua. Na nossa sociedade é comum ver crianças pretas pedindo esmolas, vendendo bala, engraxando sapatos, trabalhando em vez de estarem na escola. É comum até ver crianças pretas anestesiando seus sofrimentos com drogas, alucinadas, roubando para comer ou simplesmente para ter o mínimo que uma criança branca tem.

As crianças pretas estão marginalizadas e quem tá nessa situação não têm tempo nem dinheiro pra domar seus cabelos.

Então foi nessas crianças pretas que o cabelo crespo ficou mais evidente e, com isso, o cabelo crespo virou uma característica particular dos marginalizados (os moradores de rua, catadores, pedintes…).

Mas o cabelo crespo – quando digo crespo, não tô falando sobre o enrolado, ondulado, frisado ou algo assim mais aceito pelo padrão – eu tô falando crespo mesmo,  aquele pra cima, o indomável, chamado pejorativamente de duro. O cabelo crespo não é uma característica particular dos marginalizados, e sim dos pretos mais escuros, os que mais sofrem racismo no chamado colorismo.