Ainda somos escravos

August 18, 2017 1:39 pm

por Manoela Ramos

Muitas vezes eu me me pego remoendo histórias passadas, estudando o período de escravidão dos africanos e me coloco num papel de sofrida pelo sofrimento dos meus antepassados.

Muitas vezes pensei que não poderia haver crueldade maior do que a que os africanos vivenciaram. Por vezes pensei que nada havia mudado e que todos os pretos, inclusive eu, de alguma forma sofriam com os tempos de escravidão dos antepassados.

Hoje eu vejo que realmente nada mudou. A escravidão ainda existe, a chamada escravidão moderna. E ela não está resumida a uma rotina exaustiva e salário baixo. Ela é punitiva, perversa. Existem agressões para manter os escravizados em condições desumanas, serviços braçais exaustivos, debaixo de sol quente, condições inseguras de trabalho, estupro, tudo.

Nada mudou. A diferença é que eu não nasci escrava como minha tataravó. Eu não nasci escrava, não mesmo. Posso ser massa de manobra, mas escrava não. Então por que fico remoendo a escravidão que não sofri ao invés de tentar revirar e conhecer a escravidão que está acontecendo agora?

Atualmente, quase 46 milhões de pessoas vivem em regime de escravidão no mundo. Os senhores escravagistas ainda existem, as fazendas e plantações de escravos também. E como eu posso efetivamente contribuir para isso acabar?

O que estou fazendo para o fim da escravidão?  Eu, justo eu, que vivo lamentando por meus antepassados feitos de escravos…

Sinceramente, ainda não sei como agir a respeito disso. Sei que posso ao menos tentar não colaborar e enriquecer os escravistas. E que, por agora, posso deixar de me apegar tanto ao passado e me concentrar em conhecer o presente, para ver se assim consigo contribuir para um futuro melhor. Hoje sei que nada adianta lamentar por algo que não sofri se ainda existem pessoas sofrendo. De nada adianta sofrer pelo passado se a realidade do presente é a mesma. É mais lógico que eu sofra pelo presente.

E que eu perceba que no presente eu contribuo para o sistema escravagista através do meu consumo. É o único poder que a massa possui, além do amor, o poder de compra. E o que estou fazendo com ele?

Estou empoderando aqueles mesmos senhores escravagistas que aprisionaram meus antepassados. Estou os enriquecendo comprando produtos baratos produzidos pelo suor de uma pessoa escravizada.

Será que me importo tanto assim com a escravidão? Então por que é que não consigo romper com sua lógica em detrimento dos meus desejos?

Será que focar tanto na escravidão apenas do meu povo não é uma forma de me eximir de culpa? Oras, sou descendente de pessoas que foram escravizadas, essa lógica escravagista não é minha. Mas se não é minha por que eu ainda a legitimo com o meu consumo?

O pior é que eu sei a resposta:

Porque não quero abrir mão do meu conforto.