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“Fake News” e a mídia contemporânea

October 6, 2017 2:47 pm

por Manoela Gonçalves

Fui assistir ao documentário “Fake News: Baseado em Fatos Reais“, que mostra como as “notícias falsas” influenciaram a eleição norte-americana, em que Donald Trump conseguiu se eleger. No documentário tem uma entrevista com um dos criadores do site de notícias falsas. Eles inventavam as noticias mais absurdas e divulgavam nas redes sociais, sendo a principal o Facebook. O jovem de 19 anos entrevistado conta que a ideia surgiu para ganhar dinheiro. Os meninos lucravam por clique, e começaram a criar notícias mais favoráveis a Trump, pois seus eleitores aceitavam e “clicavam” mais do que os da Hillary. Então, eles inventavam noticias e jogavam em grupos com eleitores do agora presidente.

“Notícias” como “Hillary é pedófila”e “O papa apoia Trump” foram das mais acessadas e, consequentemente, das mais lucrativas. Em um dado momento, o menino é questionado a respeito da sua responsabilidade e influência nas eleições presidenciais dos EUA. No primeiro momento parece mais que óbvio que o jovem tem muita influência na eleição de Trump, e isso é até assustador, como um pequeno grupo pode influenciar assim todo um país. Depois comecei a pensar e cheguei a conclusão de que não, que apesar de ter sido uma ótima estratégia para ganhar dinheiro, o jovem não teve tanta influencia assim.

A gente tende sempre a pensar que os meios influenciam as pessoas, mas esquecemos de que as pessoas, a opinião pública, influenciam os meios. A mídia é uma espécie de espelho social, ela reflete o que a sociedade pensa. O menino da entrevista disse que alimentava mais os eleitores do Trump porque eles não questionavam a veracidade das notícias tanto quanto os eleitores de Hillary. Na realidade os eleitores queriam mais motivos para adorarem ao Trump. As notícias falsas não criaram eleitores, os eleitores é que refletiram a criação das notícias falsas direcionadas a eles.

Dificilmente alguém mudou de lado, tanto que é dito que os eleitores de Hillary questionavam, não aceitavam aquilo que estava escrito. A mídia transmite à sociedade o que a sociedade quer ver.

Glória Pérez já fez um monte de novelas, mas só agora aborda a transgenia. Me lembro de uma novela chamada “As filhas da mãe”, em que tinha um personagem transgênero, que saiu do ar por falta de audiência, e agora a novela das 8 nos dá motivos para ser assistida.  Meu pai quando vê continua falando que é baixaria falar de transgenia, nem assiste. Já as pessoas que debatem esse tema encontraram motivos para acompanhar a trama.

Será que são mesmo os programas que influenciam uma mente a disparar contra uma multidão ou esse tipo de mente que reflete na criação de programas violentos? Se analisarmos o conteúdo exibido nos meios midiáticos, percebemos que são tudo frutos da imaginação e perversão humana. As grandes audiências ainda são para programas de guerra e de perversão sexual. Muitos indivíduos acusam as mídias de embutirem tais pensamentos na cabeça da sociedade, mas na verdade o conteúdo é fruto de cabeças e consumido por outras cabeças. A guerra ainda está no desejo humano, se não, os filmes, seriados e programas de guerra não seriam os com maior audiência.

Ninguém é estimulado à subversão pelo rap, mas muitos subversivos é que se identificam com o gênero musical. O funk reflete a realidade hiper sexualizada de muitos. Não podemos dizer que influenciou, por exemplo, aquele homem que ejaculou mais de uma vez em passageiras dos transportes públicos. Pessoas que já vivem a situação de sexualizar tudo ao redor é que estimularam a criação de letras como “sarrando mentalmente em você”. Afinal, o que o homem fez não foi praticamente o que canta a letra de funk? O mesmo acontece com as letras que falam das “novinhas”. Essas letras podem até influenciar a sexualização infantil, mas foi a sexualização infantil, principalmente dentro das periferias, que refletiu no conteúdos das letras de funk.

As notícias falsas alimentaram os eleitores do Trump, mas ela não os criou. Eles já existiam, e só precisavam de mais motivos e por isso as notícias tiveram tanta força. Às vezes parece muito assustador imaginar que existem pessoas com verdades tão diferentes da nossa, com isso é mais fácil responsabilizar os meios midiáticos, como se as pessoas que pensassem diferente de nós fossem tolas influenciadas. Mas a mídia está apenas refletindo o pensamento do grupo que quer atingir. Os meninos das notícias falsas queriam atingir os eleitores do Trump pois aqueles eram mais rentáveis e queriam ler que o Papa apoiava seu candidato. Os homofóbicos fascistas brasileiros saíram do armário com o Bolsonaro, mas Jair não os criou, eles já existiam e foram essas pessoas que na realidade criaram o “Bolso(vo)mito”

Sem dúvidas a mídia serve de combustível e fortalece ao grupo que dela faz uso, mas a mídia é um espelho, ela reflete a opinião pública por mais absurda e inacreditável que possa parecer essa opinião.