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Todo branco é racista. E todo preto também.

September 18, 2017 12:08 pm

por Manoela Gonçalves

Não tem jeito, por mais vergonhosa e constrangedora que seja essa realidade, todo branco é racista. Assim ele foi ensinado não só pelos pais, mas pela mídia, escola, amigos e livros. Todo branco é racista e todo preto também.

Eu só posso falar sobre a minha realidade, e pelo que vejo, eu, meus pais e familiares somos racistas. Já fomos mais, mas ainda somos.

“Ah, mas o preto não pode ser considerado racista, pois racismo é algo estrutural e racista é quem se beneficia dessa estrutura.”

Eu só posso falar sobre a minha realidade, e pelo que vejo, já me beneficiei bastante dessa estrutura capitalista. Eu nunca tive como negar, mas já vi e vejo alguns parentes meus que se consideram branco e sentem-se melhores com isso. Vejo um processo de embranquecimento por parte da maioria dos meus familiares, nos gostos, estilo de vida, destinos de viagem, em quase tudo.  Já vi e vejo parentes se apelidarem com termos racistas, eu mesma fui aprender esses termos dentro da minha própria casa. Já ouvi alguns que só lá, como se fosse um ensinamento para não nos associarmos ao lado negro, no sentido literal da palavra.

Minha mãe me disse que minha vó a aconselhava casar com um homem branco, para as filhas não terem trabalho nem sofrimento com o cabelo. Quando criança, lembro mais de uma vez meu avô dizendo, como seu pai dizia que um problema de um preto era outro.

Nós pretos fomos ensinados a odiar ao outro preto, e racismo é isso, no fundo é isso. Por mais que se tenha o discurso estrutural, já que o reflexo desse ódio resultou na desigualdade sociorracial, racismo é ódio a uma raça. E assim como os brancos, nós também somos ensinados a odiar o preto, a diferença é que isso torna-se auto-ódio. Você começa a não ter gostado de ter nascido preto e a querer que seus filhos não experienciem a mesma sensação. Então a forma que der para se proteger e proteger os seus, você faz através dessa estrutura e lógica que associamos ao sistema do branco em que quem tem mais e demonstra, se beneficia. E minha família sempre legitimou essa lógica.

Assim como todos, meus pais também reproduziram bastante o racismo que os foi ensinado. O racismo é passado de pai pra filho, e assim como nós pretos somos ensinados pelos nossos próprios pais, os brancos também aprendem com os seus. Não dá para encontrar o culpado pelo racismo se todos somos.

Não quero eu deslegitimar discursos e movimentos, muito pelo contrário, sou super a favor e grata a eles. Percebo e sinto sua importância principalmente porque foram os movimentos que me ajudaram a perceber esse auto-ódio a que eu fui ensinada, e a partir disso começar a me desconstruir para eliminar o meu lado racista, de enxergar o preto como inferior ao branco, seja no vocabulário racista, nas referências de estudo, nas filosofias adotadas, nas marcas consumidas, nos programas e filmes assistidos, em tudo, até nos sonhos tinha o racismo presente.

Todo preto, assim como branco, foi ensinado ao racismo. A diferença é que de repente como nós nos prejudicamos com as crenças racistas, chega um momento em que não a aceitamos mais. Não seria nem lógico. Com isso, a busca por igualdade racial parece um movimento de uma só cor. Os brancos não refletem muito sobre o racismo, pois isso não te causa sofrimento, e geralmente a reflexão vem com o sofrimento. E é por isso que nós pretos insistimos em afirmar que todo branco é racista. Para que vocês brancos, se incomodem, se possível sofram com o nosso discurso, reflitam, se desconstruam e consigam ao menos criar seus filhos sem a lógica racista. Então toda vez que ouvir a afirmação de que todo branco é racista, entenda como um convite a reflexão a respeito da desigualdade racial e uma intimação a desconstrução para revertermos essa lamentável realidade.

O jeitinho brasileiro

September 1, 2017 11:30 am

por Manoela Gonçalves Ramos

Eu nunca aceitei muito bem o discurso de que o Brasil não presta. De que todos somos corruptos e que nosso governo reflete o comportamento da maioria. Eu nunca percebi o Brasil como um lugar hostil, perigoso e violento como é retratado nos telejornais, e sequer aceito o discurso de que o jeitinho brasileiro seja uma malandragem corrupta.

Chegou um dia em que eu decidi conhecer melhor o meu país. Não só as paisagens e belezas naturais, mas o povo brasileiro e o tal jeitinho que dizem que temos. Descolei umas miçangas pra vender na praia, coloquei na mochila o que pensava ser necessário e lá fui eu conhecer melhor o lugar em que nasci.

As miçangas, apesar de me renderem algum dinheiro, são pretexto para conhecer de verdade os nativos de cada lugar. O valor que ganho nem se compara à quão valiosa é a sensação de pertencimento por cada local em que passo. O legal de viajar vendendo na praia é o olhar que as pessoas têm de mim, não sou tida como turista e sim como nativa, afinal, quando eu estou ali, estou trabalhando. Assim estou podendo conhecer de verdade o povo brasileiro.

E que povo receptivo esse tal de brasileiro!

A dona Maria quando me conheceu, quando viu uma menina viajando sozinha e vendendo, me deu um abraço forte e disse de uma forma muito sincera que torcia muito por mim. Uma outra Maria, que vive vendendo miçangas há anos, agora coroa e continua debaixo do sol trabalhando, fez um manual de dicas, disse que eu deveria ter variedade e me deu alguns trabalhos dela para preencher meu painel. Eu até fiquei sem graça em aceitar, mas não quis fazer desfeita. A Neice, mais conhecida como baiana, disse que se eu precisasse de algo, era só chamar. A Ju, uma “hippie” que viaja com o marido e filho vendendo, me ensinou quais os melhores horários e dias para vender na praia.

Na areia, debaixo do sol, não parece existir concorrência. Todos se respeitam e colaboram um com o outro. Em geral, o brasileiro é um povo que compartilha muito. Eu nunca pedi mas muito me oferecem ajuda. Às vezes, passa alguém vendendo comida e me dá algo. Os preços pra mim são mais em conta e de vez em quando até rolam uns passeios de graça, naqueles dias sem movimento. As pessoas me acolhem e me ajudam. O brasileiro tem esse jeitinho.

A cada lugar que passo percebo que o jeitinho brasileiro é o jeito de uma gente zelosa, acolhedora e extremamente amorosa. O Brasil não é isso que mostram nos telejornais e o mundo tem mais pessoas boas que más.

Eu digo isso porque é o que vejo a cada dia que passa e conheço melhor esse povo brasileiro.