Archives

Reflexões de medo e mídia, por Manoela Gonçalves

April 27, 2017 12:54 pm

por Manoela Gonçalves

Dia desses estava eu subindo uma rua de ladeira em São Cristóvão, quando vi uma senhorinha, cheia de sacolas de supermercado, subindo um pouco mais a frente do que eu, toda cansada. Então adiantei meu passo para alcançá-la e logo fui me oferecendo para carregar suas sacolas. A senhora segurou meu braço assim meio se apoiando, disse que não precisava de ajuda para carregar as sacolas, mas que de fato estava cansada e que precisava parar um pouquinho para pegar um ar.

Eu, que já adoro assuntar, a deixei segurando meu braço e continuei esperando ela recuperar o fôlego. Nisso a senhora começou a me contar da vida dela (não sei o porquê, mas as pessoas adoram me falar de suas vidas e eu adoro ouvir) e disse que há pouco tempo ficou muito doente, que não conseguia nem sair de casa. “Um horror, minha filha”, dizia ela.

Eu, meio curiosa, meio fofa, logo disse:

– Ah, mas nem parece, a senhora está com uma aparência ótima.

Ela respondeu:

É, mas eu não saía nem de casa, meus filhos não sabiam o que fazer comigo. Eu tive aquele negocio do pânico. Fiquei com pânico, não conseguia sair de casa, eu via muita televisão, noticiário falando de bandido o dia todo, antes de dormir imaginava os bandidos entrando na minha casa, fazendo maldade com minha família, achava que quando eu saísse na rua iriam me sequestrar, me assaltar, ficava com medo de sair e ter bala perdida. Só melhorou quando o médico disse:

– Dona, joga a televisão fora!

– Não deu outra, joguei e agora tô boazinha. Até penso nos bandidos de vez em quando, mas agora é só de vez em quando, quase nunca.

Eu disse logo:

– Menina! Isso é assim mesmo! Comigo aconteceu a mesma coisa, esse negocio de televisão toca o terror na gente, deixa cheio de agonia, um horror. Meu médico também me mandou parar com a televisão.

Ela, muito surpresa e até um pouco aliviada, completou:

– Gente, achei que fosse um problema só meu, aconteceu com você também? Achei que era da idade, sei lá mas esse negócio de televisão é terrível mesmo

Moral da história: não aconteceu comigo porque antes de ficar paralisada pelo medo, deixei bastante a televisão de lado, sobretudo antes de dormir, mas acontece muito mais do que a gente imagina. Televisão é uma arma poderosíssima de controle através do medo mascarado de realidade. O mundo realmente real, o mundo de sentimento, compaixão, generosidade, o mundo de fato humano, não aparece na televisão.

A vida vivida é muito melhor e mais tranqüila do que a que a gente assiste no noticiário.  

Por que falar de apropriação cultural em uma cultura global?

April 20, 2017 7:09 pm

por Manoela Gonçalves

Vire e mexe vem à tona o assunto de apropriação cultural nas redes sociais. Dentro dos coletivos, essa é sempre uma pauta muito discutida. Pela definição, apropriação cultural é a utilização de elementos específicos de uma cultura por um grupo cultural diferente. Por definição, apropriação cultural parece sem nexo dentro de uma cultura globalizada.

Mas o que seria essa cultura global?

Me lembro de ter ouvido esse termo pela primeira vez na aula de geografia quando estudei o processo de globalização. Da forma que estudei, esse processo pareceu algo bastante natural e pacífico. Algo como se as culturas presentes no mundo tivessem entrado em um consenso e se fundido em apenas uma, e aí vieram os meios de comunicação para aproximar ainda mais essa ideia de unidade cultural, formando uma cultura global.

No entanto, a aula de história me mostrava algo contrário a um processo pacifico e natural. O processo de globalização iniciara com a saída dos europeus para a “descoberta” de novos lugares. Se romantizarmos bastante a história, podemos até entender todo esse movimento como algo para unir os continentes e finalmente o mundo retornar ao estado original de união, não existindo separações. Mas ao analisar a história, percebe-se que não foi assim que aconteceu e acontece.

A saída dos europeus não teve como intuito a união das culturas e sim seu domínio, e para isso o aniquilamento delas.  Por mais que a ideia de uma cultura global e a união das nações seja, ao meu ver, bastante interessante, a agressividade, ego e ganância do seres humanos que dominaram nunca deixou que isso se desenvolvesse de uma maneira natural e pacífica. Os europeus saíram em busca de riqueza, e a encontrou nas culturas.

Assim se deu os relacionamentos culturais, como uma forma de se obter riquezas. Primeiro existiram negociações comerciais, depois foi à base do domínio e aniquilamento. Como os europeus saíram à frente nessa aventura de dominar o mundo, eles foram os que enriqueceram primeiro, depois seus descendentes espalhados pelo globo.

Aqui no continente americano não foi diferente. É sabido que quando a América teve contato com a Europa, a cultura original americana foi sendo submetida ao poder do outro povo. Igualmente se deu o contato entre Europa e África. A Europa enriqueceu a custa do domínio de outros continentes e de outras culturas. E isso resultou na miséria de muitos povos até os dias atuais.

A tal apropriação dos elementos culturais de uma cultura por grupos culturais diferentes resultou no aniquilamento de muitas culturas e no enriquecimento de poucos. A chamada cultura global assim demonstra-se ser um mito, visto que o que existe na realidade é um domínio global por parte de uma cultura.

Se formos considerar toda a história da humanidade, essa parte não faz tanto tempo assim, com isso, até hoje esse processo de apropriação cultural ocorre para o enriquecimento de poucos à custa da cultura alheia.

Quando contesta-se a utilização de elementos culturais por parte de outros grupos, refere-se a organizações que estão fazendo o processo semelhante à história da dominação cultural. O que está sendo contestado e criticada são a estrutura social e as organizações que estabelecem tal estrutura e não um ato individual. O problema não está em um cidadão utilizar elementos de outras culturas, sentir-se pertencente a uma cultura que não condiz com sua criação ou tipo físico. O problema existe quando isso é feito por organizações que irão lucrar em cima disso sem dar qualquer retorno para o grupo cultural explorado.

Se uma marca quer anunciar seu produto utilizando elementos culturais, ela deve por responsabilidade social, respeitar os atributos. Uma propaganda exerce muita influencia e gera informação aos indivíduos, muitas pessoas não tem conhecimento a respeito das culturas. No momento em que uma marca veste uma pessoa branca de uma Deusa africana, por exemplo, para anunciar uma coleção, isso torna-se apropriação cultural. Por que não eleger uma modelo de acordo com a estética da cultura que ela diz querer propagar? Não estaria ela propagando de uma forma muito mais fiel e esclarecedora e ainda retornando parte do lucro a pessoas dessa cultura?

De repente para o grupo que se beneficiou com toda essa história, essa questão pode parecer pequena, uma besteira. Mas para os grupos que estão tentando se reerguer mesmo com toda essa história, essa questão é mais que fundamental, é vital. Afinal foi devido à apropriação cultural que o mundo se encaminhou para essa desigualdade social. E se estamos tentando desfazer toda essa organização desigual, é preciso retribuir o valor correto que se obtém em cima de uma cultura oprimida, só assim começaremos a acabar com toda essa opressão.

Eureca, uma empresa jovem que coloca o jovem no mundo profissional

April 17, 2017 10:02 am

Eureca é a interjeição do famoso matemático grego Arquimedes, que signifca “encontrei!”. A exclamação de resolver um problema muito complicado. E a entrevista do #BlogVV de hoje é com Augusto Junior, da empresa que leva o nome dessa notável expressão. A Eureca nasceu em 2011, no boom que houve no Brasil de startups. Surgiu como um blog que falava desse mundo de inovação dentre os jovens, e teve uma recepção muito boa do público, principalmente sobre a forma que compartilhava conhecimento. Do blog, passaram a levar workshops, principalmente pra faculdades e mais tarde foram localizados pelas empresas para realizarem os processos seletivos. A Eureca, assim como a VV, tem como objetivo envolver os jovens pra fazer a diferença! A entrevista tem dicas pro jovem que está chegando agora no mercado de trabalha e explica como o trabalho social, que leva adiante o BEM pode ajudar na vida pessoal e profissional de cada um.

Augusto, como foi esse caminho de chegar ao âmbito profissional, fazer os processos seletivos de grandes empresas?

Percebemos que o modelo de processo seletivo das empresas era muito ultrapassado, e que a história de um jovem vai muito além de um currículo, de um pedaço de papel. A partir daí criamos uma plataforma nova, baseada na gamificação. Isso fez os jovens aderirem, porque dava a elas toda a questão de pontuação, etapas e tudo mais. A segunda premissa é que rola uma experiência de desenvolvimento. O jovem não se sente sob avaliação, é como se fosse um workshop. O terceiro é o matching de cultura, pra gente ter certeza que o jovem esteja no processo seletivo da empresa certa pra ele.

Com todo esse contato com o universo do jovem atual, o que vocês acham que o jovem busca como propósito?

Os jovens hoje eles tão em busca de coisas que vão além do salário. A gente sabe, temos exemplos de muitos jovens que largam salários altos pra trabalhar em coisas que o gratificam, que tem propósito, significado. Eles não querem fazer coisas por fazer. Querem fazer coisas pra mudar o mundo. E realmente, eles podem, eu acredito nisso. Outra questão é o desafio. O jovem de hoje quer se sentir desafiado, sentir que pode crescer mediante desafios.

Qual a valorização que vocês sentem que é dada por esses jovens pro trabalho social e voluntário? E como atrair os jovens pra fazer esse trabalho?

Hoje o trabalho social, voluntário, humanitário é essencial, é importante pro jovem. Hoje isso é considerado essencial pelo mercado, que o jovem seja envolvido com causas, com trabalhos sociais, importantes. Isso mostra às empresas que são candidatos dedicados, e com certeza aumenta a chance deles nos processos.

O melhor jeito de atrair o jovem é mostrar que ele é fundamental, que ele realmente pode fazer a diferença. E claro, tem que haver a causa. Cada um tem uma conexão com uma causa, seja a ambiental, a humanitária…

 

André Fran no México: Violência contra ativistas dificulta ações sociais

April 10, 2017 7:57 pm

Nosso co-fundador, VP de comunicações, apresentador, escritor e palestrante agora é também um correspondente especial da #VV! O Fran já viajou por dezenas de países e leva o perfil da #VV, de ajudar o próximo e enriquecer a própria experiência de vida como filosofia pessoal. Em sua nova coluna especial exclusiva para a Volunteer Vacations, ele vai visitar, conhecer e apresentar projetos, pessoas, ONGs, iniciativas que façam a diferença no mundo em que vivemos. Tudo a ver com a VV!


O último destino de Fran foi o México. Com a equipe do “Que Mundo É Esse?”, Fran foi ao México ver toda a questão da polêmica do muro de Trump, da violência urbana mexicana, da imigração e como essas mazelas estão afetando a população.o México.

Um dos problemas identificados por Fran foi a escalada da violência urbana e como ela é prejudicial para os importantes trabalhos sociais desenvolvidos nas cidades mexicanas.

Ciudad Juarez, por exemplo, que já foi considerada a cidade mais violenta do mundo, está voltando a ter muitos homicídios, sequestros, roubos e feminicídios. E uma das coisas que me mostrou como é perigoso tocar trabalhos sociais por lá, há uma perseguição não apenas às mulheres jovens e de baixa renda. As próprias ativistas que cobram a polícia e o governo para que tomem atitudes em relação aos feminicídios acabam também sendo assassinadas. Uma situação terrível”, conta o Fran.

O assassinato de mulheres e ativistas de causas sociais no México é muito elevado, e Fran explica que por isso é muito difícil achar uma forma de que o voluntário VV trabalhe e faça a diferença com segurança no país.

“Espero que a situação mude em breve para que a gente possa fazer a diferença por lá também. Até lá, vamos continuar monitorando a situação!”.